Pois é, quatro anos se passaram. Não sei dizer se passaram rápido ou devagar. A sensação do tempo, da passagem do tempo, de tão relativa, me parece que sofre variações. Pelo menos no que diz respeito aos filhos. Para algumas situações a impressão é que o tempo simplesmente voou. Para outras, parece que levou uma eternidade. Há ainda aquelas situações em que o tempo que passou parece que foi aquele tempo mesmo, nem mais rápido, nem mais lento.
Quatro anos bem cheios, isso posso afirmar com certeza. Talvez os anos de maior intensidade em toda a minha vida. Olhando pra trás agora, sinto que alguma coisa já se perdeu, algumas lembranças já se embaçaram na memória, ficando para trás, guardadas num canto que só vou mexer muitos anos mais tarde. Olhando pra frente, prevejo muitos anos tão intensos quanto foram esses quatro. Olhando para o espelho, vejo que mudei muito, bastante e que as mudanças por vir virão de forma acelerada.
A idéia de escrever sobre essa experiência não é nova. Pensava na possibilidade bem antes dos três nasceram, quando ainda eram uma notícia na barriga da mãe. E foi uma noticia das mais efervescentes que já recebi. Me deixou num misto de pânico e felicidade, numa mistura não dosada de ódio do imprevisível e temor pelo futuro, numa combinação da sensação de plenitude com o sentimento de impotência. Mas, essas mesclas de sentimentos sem padrão são de fato a vida, fazem com que a vida tenha sabor e graça. A questão é que não se percebe isso no dia a dia, na balada ritmada do cotidiano. Essa montanha russa de fato aparece quando algo fora do comum acontece, nos jogando pra cima e pra baixo, passando por loopings alucinantes que causam um certo enjôo e por picos de altura de dar frio na barriga.
Pois é, vieram três. Trigêmeos. Totalmente sem querer. Uns dizem, que é uma benção, uma graça, outros dizem que fomos escolhidos, premiados. Uns desconfiam que não foi um processo natural, outros fazem previsões das dificuldades da criação de três ao mesmo tempo. Uns ficam maravilhados, uns ficam invejados, e há até os que ficam horrorizados com tanta gente. Porém ninguém fica indiferente. Eu mesmo passei por vários estágios nesses quatro anos. Tive meus momentos de incredulidade: ‘será possível que não fizemos nada? Não pode ser, trigêmeos?’ E tive momentos de pessimismo: ‘será possível criar esses três ao mesmo tempo, como daremos conta de todas as responsabilidades dessa tarefa?’ E ocasiões de profunda alegria que me deixaram babando nos três, e algumas de angústia com a fragilidade da vida que me fizeram chorar.
Apesar de tudo isso, estou aqui, estamos aqui, os três, minha mulher e eu, vivendo, sobrevivendo. Aprendendo a viver uma vida que não foi planejada. Inventando todos os dias a melhor maneira de viver essa grande surpresa. Descobrindo a cada minuto como transformar os fatos da vida em energia para continuar vivendo. Nossa vida se tornou um aprendizado constante, uma invenção diária cheia de descobertas.
A partir de agora começo a contar essa história. Confesso que fiz um plano genérico, nada detalhado, porque sei que pelo meio do caminho vou tomar outros rumos, querer contar coisas que antes não lembrava ou novidades recém acontecidas. Não pretendo fazer um diário, seguir uma linha cronológica, estabelecer temáticas para serem esmiuçadas. Vamos indo, passo a passo, procurando contar de um jeito que faça sentido. Então, vamos ver como fica...
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