novembro 11, 2009

a história da mudança [5] – vicki and lutz no seven seas mariner

Pra quem não queria viajar de navio, eu estava no paraíso. A viagem e o navio superaram em muito minhas expectativas. Minha resistência a viajar de navio era a impressão de estar confinado com milhares de pessoas, obedecendo a horários restritos, tendo que almoçar sempre com as mesmas pessoas, na mesma mesa, essas coisas de cruzeiro. No Seven Seas não senti nada disso, muito pelo contrário.
A comida era simplesmente espetacular, o café da manhã era ‘a la carte’, a variedade de opções para almoço e jantar enorme. As áreas livres eram espaçosas. Aproveitamos pra fazer esportes todos os dias, nadar, tomar uma jacuzzi, correr, jogar raquetinha. Os passeios em terra eram ótimos. Além disso, a cabine tinha uma pequena varanda que nos permitia aproveitar os ares gelados do Alaska.
Foi tudo perfeito. Agora me pergunte: você faria outra viagem de navio? E eu diria: acho que não, só se fosse no mesmo nível! Exigente é pouco! Agora me pergunte o que de fato interessa: o que essa viagem tem a ver com o fato de mudar pro Canadá? Vamos lá!

Na segunda noite no navio tivemos o famoso jantar com o comandante e a tripulação. Já que eu estava na chuva, tinha que me molhar. E fui falar com o comandante, um ítalo-americano, animado, boa praça. Ao cumprimentá-lo e conversar com ele, se aproxima uma senhora morena, que o cumprimenta em italiano. Como eu estava do lado, cumprimentei-a também, em italiano. Enquanto algumas outras pessoas vinham falar com o comandante o meu parco italiano foi a deixa pra puxar papo com a senhora.

Logo chamei Bia para apresentá-la também. E a senhora chamou seu marido. Eram Victoria Ruscito e Lutz Moritz, um casal de canadenses de Vancouver. Conversamos um pouco, tomamos um champanhe e nos sentamos na mesma mesa para o jantar, apenas nós quatro. É gostoso conhecer pessoas assim, conta isso, conta aquilo, você tenta fazer um mapa esquemático de quem é você, o que faz, o que pensa e tenta compreender quem são as pessoas que vê pela primeira vez. E nossa afinidade foi imediata. Lutz era reservado, porém cheio de histórias pra contar, filho de alemães imigrantes, ficou viúvo quando os 3 filhos eram pequenos, criando-os praticamente sozinho. Era pai de um rapaz, pesquisador da UBC e de gêmeas. Na verdade a gestação foi de trigêmeos mas o pequeno menino faleceu. Vicki, casou-se com Lutz, mas não tiveram filhos. Era italianíssima, expansiva, calorosa, filha de italianos imigrantes.

Durante todos os outros dias da viagem nós 4 fizemos pelo menos uma das refeições juntos, tomávamos um drinque no fim da tarde, assistíamos aos shows de jazz, fazíamos passeios. Ficamos amigos. Muito amigos. Eu gostei muito de Lutz, era um cara muito interessante, pesquisador de um dos mais importantes laboratórios de pesquisa nuclear no Canadá. Bia e Vicki trocavam confidencias que só os latinos se permitem fazer com pessoas praticamente desconhecidas. Nos identificamos, nós 4. Mas, para nossa tristeza, Vicki nos contou, em segredo, que Lutz sofria de um câncer cerebral terminal e que tinha poucos meses de vida.

De qualquer forma esse casal foi decisivo em nossa opção de mudar para o Canadá. Nós contamos um pouco de nossa insatisfação com a situação do Brasil e de nossa preocupação com o futuro dos trigêmeos. Nessa época pensávamos em nos mudar para o Colorado, onde minha irmã está a mais de 10 anos. Então, eles nos contaram de suas vidas, das vidas de seus pais imigrantes, nos ofereceram uma perspectiva do país e que tínhamos o perfil do imigrante que o Canadá desejava. Eles nos abriram os olhos para a possibilidade de imigrar legalmente para um país estável. E nos incentivaram a entrar com o processo de imigração.

Ao nos despedirmos de Vicki e Lutz no navio, eles nos convidaram pra almoçar em sua casa em Vancouver. Nós fomos, é claro. E em Vancouver começou uma outra parte importante para nossa decisão de imigrar.

9 comentários:

Dani e CM disse...

Octavio
A gente se apaixonou por Vancouver, pena que questão de emprego nao seja mais facil por la
Se dependesse da gente, morariamos por la mesmo...
Calgary nos aguarda! Espero conhecer voces a partir do dia 10 de março se D-us quiser

Tudo de bom
Danielle

Karla disse...

tá parecendo novela... eu sou curiosa, hahahaha.

Vcs ficam 40 dias lá e voltam pra campinas? Os meninos farão como com os estudos? Beijos!

Anna disse...

Vou acompanhando cada capítulo da história.

Desejo boa sorte para a família dos trigêmeos.

adoro o blog!

Luciana Pessanha disse...

Que viagem interessante! Estou acompanhando os planos para a mudança. Uma mudança radical. Novos rumos para a história da família. Desejo êxito.
Abraços

Jussara disse...

Achei bárbara a viagem de vcs. Já conhecia um pouco da história por causa dos outros posts, mas não eram assim tão detalhados. Acho que não tenho coragem de viajar de navio, tenho pavor daquela imensidão!rs. Quando eu li vc falando que dava até pra correr lá dentro, pensei: - Uau! Por mais que a gente saiba que navios são enormes, veja nos filmes e tudo, é bem diferente ler alguém contando. Meu pai era da Marinha Mercante, mas qdo eu nasci ele já tinha saído , e ele sempre conta altas histórias. Mas como eu disse antes, tenho pavor, quase pânico, sempre sonho me afogando e etc.
Agora voltando ao post, adorei a história de como vcs conheceram o casal de amigos, achei emocionante. E olha que coincidência ele tb ser pai de múltiplos! Lembro de no post sobre a viagem ao Canadá vc ter lamentado a morte de um amigo, e agora lendo este texto, acredito que seja ele, não? Que triste :/.
Não sei se vc é sempre simpático assim, mas vc está com uma cara bem feliz nas fotos. E a Bia tá a cara da Laura (ou seria o contrário? rs). Essas fotos do Alaska parecem pintura, acho o máximo! Me lembram a série Men in Trees, que se passava lá.
Aguardando os próximos capítulos, então :D.

Dani disse...

Ja fiquei triste pelo Lutz, com uma invejinha branca pela mudança e ansiosa pelo proximo capitulo...rs

dani
http://tri-felizes.blogspot.com/

Raíssa disse...

Olá!
Cheguei no seu blog através do blog de uma grande amiga e adorei!
Seus textos são ótimos e muito cheios de emoção (principalmente os que envolvem os trigêmeos)!
Acabo de me mudar pra Austrália e já sinto tudo o que vc escreveu sobre a experiência de morar fora. Estou relatando no meu blog tb.
Com certeza virarei frequentadora assídua.
Beijo grande e parabéns!

Anônimo disse...

no fundo, em tudo o que a gente for analisar, o que importa são as pessoas né? Linda história com o casal Lutz e Vick. Nesses desencontros da vida, encontrar gente tão boa quanto o casal é uma baita duma sorte, isso sim.
e a história continua, esperamos
bjs
madoka

Glória disse...

Muito importante esse encontro de vocês 4.
A vida parece um quebra-cabeças, os acontecimentos suas peças; e pouco a pouco essas peças vão se encaixando, formando a nossa história; uma peça aqui, outra ali, isso é lindo.