maio 08, 2008

Os nomes

Escolher nomes não é uma tarefa das mais fáceis. Quem tem filhos sabe que escolher o nome do futuro serzinho é delicado. Se escolher um é difícil, imagina três! Tivemos sorte porque ninguém interferiu, deu palpite ou coisa assim.

Nós queríamos nomes curtos, fortes, marcantes. Nada de nomes compostos. Ou parecidos porque seriam trigêmeos, queríamos manter a singularidade de cada um. No fim, Bia me deixou livre pra escolher os nomes. Acho que ela queria me dar alguma outra participação na história, já que no negócio da barriga ela era a protagonista e eu mero coadjuvante. Eu só tinha que apresentar as sugestões para aprovação final. Acho que pensamos seriamente nuns sete ou oito nomes. Fizemos a numerologia, consultamos dicionários de nomes, apelamos para interpretações esotéricas, telúricas, holísticas, transcendentais (haha). Falávamos os nomes em voz alta, ‘será que vamos agüentar falar esses nomes milhares de vezes ao longo da vida?’ Eu fazia piadas como nomes estapafúrdios, combinando três que fizessem rimas: Ermenegilda, Felisberto, e Florisbelo ou Fausto, Floro e Gaia. Nomes são coisas complicadas, alguém escolhe o nome do outro e mudar de nome não é tarefa muito fácil.

Por fim ficamos com Diogo, Laura e Mario. Difícil explicar por que. Diogo, porque é um nome forte, um pouco incomum. Mario era o nome de meu avô paterno, um avô querido, carinhoso. Também incomum atualmente. E Laura porque eu, particularmente, acho lindo. E talvez porque eu tenha uma tia Laura que é fenomenal. Uma mulher forte, vigorosa, inteligentíssima. Foi dona do colégio Gávea em São Paulo e depois virou dona de pousada nas serras fluminenses. Tudo que faz, faz com competência admirável. Uma das estórias mais legais da Laura foi contada pelo Mario Prata [em Meus homens e minhas mulheres], que foi casado com sua filha. A estória é mais ou menos assim: ela dirigia o colégio e um pai de aluno foi até ela reclamar que o filho não havia passado em matemática. ‘Minha senhora’ ele dizia, ‘meu filho vai ser um diretor, vai cuidar de seus próprios negócios, vai ter assessores pra fazer esse tipo de contas’ e Laura respondeu: ‘meu senhor, nesse colégio formamos assessores’.

A partir de então ficamos esperando Diogo, Laura e Mario chegarem.

maio 07, 2008

Os últimos sinais da barriga


Então, com vinte e poucas semanas foi recomendado que a Bia fizesse uma cerclagem, um procedimento não muito comum, mas bastante realizado em mulheres que tem problemas na gravidez, que não conseguem segurar a criança. Como a Bia tinha três pequenos lá dentro e eles cresciam de vento em popa, Dr. André achou mais prudente fazer a cerclagem. Apesar da tensão que envolve uma cirurgia, correu tudo bem.

Tirei fotos de toda a evolução da barriga. Nós só compramos uma máquina digital naquela época pra poder documentar tudo. Tenho fotos muito legais. Saber o sexo dos três foi uma das coisas mais legais. É, teríamos uma menina e dois meninos! Fizemos aquele exame morfológico, num daqueles ultrassons super sofisticados, dava pra ver até a unha que ainda não nasceu. Aí vimos as primeiras feições de cada um, os pezinhos, mãozinhas. É emocionante. E meio esquisito também. Quando já sabíamos o sexo dos três, escolhemos os nomes e escrevemos no barrigão, mais ou menos marcando o respectivo lugar de cada um lá dentro.

Depois disso a barriga da Bia só fez crescer. E ficou gigantesca, sem brincadeira. Quando saíamos de casa pra pequenos passeios a pé pelo centro, as pessoas paravam pra olhar a barriga. Quem passava mais rápido que nós, indo na mesma direção, olhava pra trás pra se certificar daquilo que tinha visto. Quem passava na outra direção, parava, coçava a cabeça, incrédulo. Algumas pessoas, normalmente senhoras, falavam com a Bia, elogiavam a barriga, faziam perguntas.

Eu achava engraçado. E espantoso que a Bia conseguisse andar com aquele barrigão. E ela continuava fazendo de tudo, levando sua vida normalmente. Continuou trabalhando, lavando louça (de lado na pia), tudo numa boa. Quando ela chegou ao sétimo mês (ou trinta e quatro semanas), ela tirou uma licença, ficou uns quinze dias em casa. Ai ela já tinha um acerta dificuldade pra sentar, levantar, deitar e essas coisas. Seu passatempo predileto era montar quebra-cabeças. Montou uns três ou quatro daqueles gigantes.

Na última semana a barriga ficou estratosférica, algo nunca visto. Nisso já estávamos chegando ao nono mês, algo extraordinário para uma gravidez de trigêmeos. Por fim, ela agüentou trinta e seis semanas, tempo suficiente pras crianças se desenvolverem plenamente.

Convivi com aquele barrigão, meio insone, preocupado, sempre procurando estar preparado para qualquer eventualidade, uma complicação, um parto prematuro. Não sei se tenho saudades. Pô! Ele me tirou da minha cama por meses a fio! Me afastou da minha mulher! Nem um abraço eu podia dar sem que ele ficasse entre Bia e eu. Aquele barrigão não era discreto, não me deu sossego! Era espaçoso, um folgado! Claro, tô fazendo piada. Acho que sinto certa falta dele sim, mas naquele momento eu não via a hora que a moçadinha saísse lá de dentro!. Foi uma experiência inesquecível, mas que não vou repetir! Afinal, trigêmeos tá de bom tamanho, né?!

maio 06, 2008

Os primeiros sinais da barriga

Para uma gravidez de trigêmeos, até que a gravidez da Bia foi bem tranqüila. Como essa foi minha primeira experiência de gravidez, não tenho muitos parâmetros para comparação. Aliás, foi a primeira e última gravidez! Então não vai dar pra saber mesmo. O que sei é que a Bia não reclamava de nada, não sentia nada, ia tocando a vida normalmente enquanto a barriga crescia, crescia, crescia tanto que parecia que não ia parar nunca. Foi uma gravidez cercada de muitos cuidados de todos os lados. Também, pai e irmão médicos e muitos amigos médicos também.

Com dois meses já dava pra ver uma barrigazinha. Não dava pra afirmar com certeza que era uma barriga de grávida, mas ela já estava lá. Com uns quatro meses a barriga já tinha um tamanho considerável, parecia uma barriga de sete meses de uma gravidez normal. Não me lembro muito de outras barrigas. Minha irmã mais velha teve um barrigão da segunda gravidez que me lembro até hoje. A primeira gravidez da minha cunhada só apareceu com seis meses. Acho que as barrigas de gravidez são muito pessoais, variam de mulher pra mulher, entram aí fatores genéticos, saúde geral, forma física, disposição, astral, o futuro rebento que vai chegar, seu tamanho, sexo e muitas outras coisas. Apesar de ter acompanhado essa gravidez de trigêmeos, isso não me fez um especialista no assunto e nunca tive essa pretensão.

Mas, se pra Bia as coisas estavam sendo mais fáceis do que se poderia esperar, pra mim as coisas eram bem mais difíceis. Acho que dá pra imaginar um marinheiro de primeira viagem enfrentando uma tempestade em alto mar, não dá? O cara no convés do navio, pendurado sobre o mar, botando os bofes pra fora! Então, esse era eu, um futuro pai tendo pela frente uma gravidez tripla. (Acho que exagerei na imagem do marinheiro, não botei os bofes pra fora...mas chegou perto!) Até que no começo a coisa foi bem, a gente que se divertia bem, saía, fazia uma viagens curtas, tudo bem tranqüilo. Mas por volta da vigésima semana, ou por volta dos quatro meses, tudo mudou. E muito!

O obstetra que acompanhava a Bia era o Dr. André, amigo da Bia, filho do amigo do meu sogro, os dois eram colegas no mesmo hospital. Eu não o conhecia antes de entrar em seu consultório acompanhando a Bia. E logo de cara simpatizei com ele. Um cara franco, aberto, bem humorado, extremamente profissional. De vez em quando falava um pouco mais rápido do que o normal, o que me rendia alguns comentários divertidos depois da consulta, quando me perguntavam como tudo estava indo. Uma das coisas que ele disse e que marcaram a Bia e a mim foi: ‘agora acabou o glamour’, frase que ele mesmo traduziu como, depois dos filhos, acabou essa vida mansa de casal. Achei graça na hora, mas o cara tinha muita razão, muita.

Desde o início Dr. André deixou bem claro que a gravidez da Bia era de risco, que trigêmeos gerados naturalmente não era normal e que apesar da boa saúde da Bia, sua gravidez inspirava muitos cuidados. Mas ele sempre elogiava a Bia, dava parabéns. Bom, lá pelo quarto mês, fomos à consulta, tudo bem, ok, fez o ultrassom de rotina (aliás, ultrassom de gravidez é um negócio mágico, ainda mais de múltiplos, um monte de gente lá dentro, perninhas, bracinhos, quem será esse, e esse, é outro? Era a parte divertida da consulta ver a moçadinha dentro da barriga), beleza. Aí o Dr. André começou a falar: ‘agora acabou a brincadeira, não pode bobear, essa é uma gravidez de risco, e tem que tomar muito cuidado, parará parará parará’. Enquanto a Bia foi se trocar, ele continuou falando comigo, milhões de conselhos, advertências, instruções de precauções etc, etc, etc. O recado era, claramente, esse: se vocês não tomarem cuidado, pode ir tudo por água abaixo.

Eu saí dali arrasado, destruído, apavorado. Daí pra frente não dormi mais uma noite sequer. Acho que para a Bia as palavras do médico não tiveram o mesmo efeito, ela continuou dormindo a noite toda, numa boa. Preciso fazer uma pequena correção aqui. Disse que a Bia não sentiu nada, não reclamou, mas teve uma coisa que a incomodou: dormir. A barriga era muito grande, acho que descompensava o equilíbrio do corpo na horizontal, ela tinha que calçar a barriga, as costas, as pernas. Eram uns cinco travesseiros a mais na cama, fora a barriga, que com quatro meses já ocupava um bom espaço. Resultado, fui pro chão, num pequeno colchão ao lado da cama, minha ex-cama. Ali de baixo eu deitava, mas ficava ligado. A cada suspiro da Bia, a cada virada de lado que ela dava e eu esticava o pescoço, olhava pra ver se estava tudo em ordem. E assim foi até o dia do parto: o barrigão crescendo e eu sem dormir...


maio 05, 2008

A deusa da abundância

Pra começar a falar da gravidez da Bia, eu preciso contar como foi a concepção. Até isso tem uma estória, da pra acreditar? Mas tem! E começou quando nos mudamos de apartamento, em julho de 2003. Nos morávamos no Condomínio Harmonia, num apartamento de dois quartos muito legal, super bem localizado, perto do Centro e do Cambuí, o bairro mais consolidado de Campinas, com toda a infra-estrutura. Era um conjunto de três prédinhos típico desse tipo de projeto que nos anos 60 e 70 eram conjuntos populares, financiados pelo BNH ou Inocop: de três andares, sobre pilotis, com uma área livre entre os prédios. Sem elevador, os apartamentos eram muito bons, comparados com os que se fazem hoje de bom padrão: ambientes grandes, janelas grandes, muito bem iluminado, área verde.

Morávamos ali desde nosso casamento e quando começamos a pensar em filhos achamos que devíamos morar num lugar maior. Tínhamos um terreno num loteamento em Sousas e fizemos até o projeto da casa. Mas não ganhávamos muito na época e achamos que não teríamos gás pra construir o que queríamos. Então resolvemos comprar um apartamento. De cara disse pra Bia: ‘então vamos começar pelos prédios que acho interessantes pra ver se têm apartamentos vazios’. Saímos do Harmonia pela Moraes Sales em direção ao centro e descemos a Boaventura do Amaral. Na esquina com a praça Carlos Gomes eu parei: ‘olha esse prédio, é sensacional’. Olhamos e perguntamos para a moça na portaria se tinha algum apartamento a venda. Tinha. Mas o condomínio era bem salgado.

Continuamos procurando e vendo apartamentos por uns 20 dias. Até que a Bia lembro de um amigo nosso que trabalha com imóveis. Estávamos na rua não nossa busca e ela ligou pra ele e descreveu o que estávamos procurando: apartamento de três quartos, amplo, não precisava ser novo, entre o Cambuí e o Centro. A conversa durou uns cinco minutos. Vinte minutos depois ele nos ligou: ‘Bia, eu tenho um ótimo pra mostrar pra vocês, querem ver agora? onde vocês estão?’ Bia falo que estávamos ali, assim, assim e que tudo bem, queríamos ir agora. Ele explicou onde era e que nos encontraríamos na parca Carlos Gomes na esquina da rua Conceição. Tudo bem, fomos pra lá.

Chegamos na esquina da praça, rua Conceição com Boaventura do Amaral. Olhei pro prédio de que gostava pensando onde nosso amigo nos levaria. Ele chegou, nos cumprimentamos e fomos andando em direção ao prédio. Não disse nada. Fomos entrando, subimos ate o oitavo andar. Quando abrimos a porta, uma sala super espaçosa, com um janelão em toda a extensão de frente pra praça, na altura das copas das palmeiras imperiais. Eu comprei o apartamento ali, sem nem saber o preço! E o apartamento inteiro era muito bom, do jeito que queríamos e até muito melhor do que poderíamos imaginar. Comparando com o que tínhamos visto era melhor, tanto em termos de qualidade como de valor. Fechamos negócio ali, na hora!

Isso era final de maio, inicio de junho. No começo de julho já tínhamos mudado. E durante uma semana fizemos nossa festa particular, estávamos tão felizes com o apartamento e a vista que tínhamos que comemoramos todos os dias, sem exagero! E ano deu outra! Segundo a Bia foi durante esses dias que ela engravidou! É, porque como são três, achamos que a concepção aconteceu em dias diferentes! Pois é! Mas, o engraçado é que no prédio só moravam pessoas da terceira idade, literalmente, só senhorinhas, daquelas bem vovózinhas. Muitas delas eram viúvas dos dez construtores do prédio, que o construíram no inicio dos anos 60 para eles próprios morarem (o prédio ficou pronto em 1961, ou seja, tem 47 anos).

E o nome do prédio? Quem adivinha? Ceres. É, Ceres, a deusa da fecundidade da terra, dos cereais, da abundância da colheita! E a gente brincava dizendo que estava lá a deusa Ceres, descansando a quarenta anos, sem nada pra fazer no meio daquelas senhorinhas, até que chegamos eu e a Bia. E a deusa Ceres acordou da preguiça em que estava e tirou o atraso, descontou, lavou a alma. E a deusa nos trouxe a abundância das sementinhas, da fecundação, da colheita e nos deu esses três rebentos. Oito meses depois, em marco de 2004, os três viriam ao mundo. Aproveitamos bem o apartamento sozinhos, bem grande só pra nós dois. Pro barrigão da Bia foi excelente! Foi ótimo pra criar os três, até de bicicletas eles andam aqui dentro. A praça foi ótima pra eles, todas as tardes desciam pra brincar um pouco lá. Mas eles estão crescendo e o apartamento que era grande está ficando pequeno...Eu adoro o lugar, a vista, o espaço. Mas um dia vamos ter que dizer adeus pra deusa...

maio 04, 2008

Por que mesmo comigo?

Pelo jeito acho que já deu pra perceber que tivemos trigêmeos. Pois é, três de uma vez! Não fizemos nada pra que isso acontecesse, nenhum tratamento, nenhum projeto especial. Nada. Quer dizer, nada especifico para conceber três de uma vez. Talvez tenhamos feito algo antes, talvez em outras vidas, pra pagar agora cuidando de três. Tenho um amigo que diz que eu devo ter matado muito passarinho quando era moleque. Sei lá, que eu me lembre não, talvez em vidas passadas. Minha infância foi bem urbana, na São Paulo dos anos 60 e 70.

Claro, não vá pensando que não nos sentimos gratificados com essa dádiva, mas que é difícil pacas cuidar de três de uma vez, isso não dá pra negar. Como tudo na vida, ter trigêmeos tem o lado bom e o lado ruim. Na verdade, nossos planos eram ter apenas um e, quem sabe, numa possibilidade muito remota, ter mais um. Sabe como é, a vida esta difícil, dar uma vida confortável pra um só já é difícil, imagina pra dois. Três então, nem se fala. Casamos tarde, maduros e não estávamos pensando em abrir mão de certos confortos que tínhamos conquistado com anos de trabalho, começando carreiras tarde, por baixo, pra subir alguns degraus que nos dessem alguma liberdade.

Não que não gostássemos de crianças, pelo contrário. Eu, particularmente, adorava, sempre adorei, adoro crianças. Antes de ser pai, fui tio de dez sobrinhos, todos encantadores. Hoje são doze sobrinhos, quatro de um lado, oito do outro. Sempre brinquei muito com todos eles e minhas irmãs brincavam comigo dizendo que as crianças deviam me enxergar como um ser verde, por que eu exercia certa atração sobre elas (o que não se aplicou muito bem aos sobrinhos do outro lado, da minha mulher). Era só eu chegar que corriam pra cima de mim. O primeiro dos sobrinhos foi o Guilherme, que hoje é pré-adolescente. Filho da minha irmã caçula, foi o primeiro dos netos de meus pais. Quando ele nasceu, eu havia acabado de voltar de uma jornada pela Europa, com uma mão na frente e outra atrás, meu pai havia morrido recentemente, a Guy (minha irmã) era recém casada e o Fernando, o marido, ainda estudava medicina. Morávamos todos juntos na casa de minha mãe. Acabei sendo escolhido para padrinho do menino (sou o único irmão da Guy e o Fernando tem dois, então acho que ficou fácil decidir assim, pra minha sorte) e fazia de tudo com ele. Levava-o pra passear, dava comida, tomava conta. Só não fazia uma coisa, que eu não cansava de repetir que só faria com filho meu: trocar fralda.

Eu me perguntava, desde o começo, dos primeiros exames e durante toda a gravidez. Continuo me perguntando sempre porque eu mesmo? Por que isso aconteceu comigo? Não sei, não cheguei nem perto de uma resposta plausível, convincente. Acho que vou encontrar essa resposta na minha própria vivência, a medida que a minha própria vida com os trigêmeos for fazendo sentido, for se concretizando. Mas pode deixar que eu vou contando como tudo aconteceu e isso pode fazer sentido pra cada um que lê. Pode deixar que eu conto minhas peripécias com as fraldas um pouco mais pra frente. Mas antes tenho que contar muitas coisas, como, por exemplo, como foi a gravidez da Bia e como convivi por longos meses com aquele barrigão!

maio 03, 2008

Trigêmeos!!! Nossa!!!

Bom, dá pra imaginar como foram as reações das pessoas a essa notícia. Se nós estávamos meio incrédulos, imagina os outros. Se nós ainda não tínhamos nos acostumado, enfrentar o que os outros diziam era o começo de uma aventura que sequer havíamos imaginado que iríamos trilhar. Na maior parte do tempo nos divertimos muito com tudo. Mas eu que gostava de uma atitude ‘low profile’, discreta, que não gostava de chamar muita atenção, tive que mudar muito, muito mesmo.

A família ficou pasma! Ninguém acreditou, todos ficaram muito preocupados, foi uma loucura! A primeira pessoa que soube foi minha sogra. Ela estava com a Bia fazendo o ultrassom que confirmou os trigêmeos. Não vi a expressão que ela fez, mas adivinho, porque já vi essa expressão de espanto que ela faz quando as coisas a pegam desprevenida. Seus olhos se arregalam um pouco, parece que ela olha através das coisas e ai ela fala: ‘hein!!!’ Pois é, no primeiro momento a sogra ficou bem preocupada. Ficou assim por alguns dias, sem nem falar direito, o que pra mim era um espanto.

No dia do ultrassom, passou por lá o irmão da Bia, também médico. Passou lá pra dar uma forca pra irmã, apoio moral, ficou na sala por um tempo. Ele já estava preocupado com a idéia de gêmeos, imagina com trigêmeos. Ele falou pra Bia, acho que mais pra tranqüilizar, dar uma acalmada nela, que estava meio tensa: ‘fica tranqüila, trigêmeos só com tratamento, não tem jeito, você não vai ter três não’. Depois de confirmada a gravidez tripla ele ficou meio quieto, como é seu costume. Mas depois de um tempo dava risada.

Minha mãe chorou, assim como minhas irmãs. Não é uma reação muito estranha em minha família. Elas choram mesmo, até em bolinho de aniversário de criança, em qualquer filminho água-com-açúcar, em qualquer despedida por mais de uma semana. Choraram dando risada, sabem como é isso, né? A reação digna de nota mesmo foi a do meu cunhado, todo machão. Eu já estava casado há quatro anos e nada de filho. Minha irmã mais velha ficara casada cinco anos e nada de filho. A outra, depois de cinco anos sem filho, começou a fazer umas simpatias naturais, no mínimo estranhas, pra não dizer que algumas eram hilárias. A que mais marcou foi o tal banho de banheiro com nabo. É! Ela entrava na banheira com um monte de nabo boiando e dizia que isso ajudaria a engravidar...e não ‘e que ajudou? Alguns meses depois ela engravidou e, claro, dizíamos que o filho era do nabo! Mas voltando ao cunhado macho, ela namorou minha irmã caçula doze anos antes de casar. Desde que eles tinham doze anos! Dá pra acreditar? E na família dele havia uma tradição das pessoas casarem grávidas. Lógico, ele seguiu a tradição e eles casaram grávidos! Então ele (e a família dele, de quem somos muito amigos, são muito divertidos) achava que na minha família não tinha macho, que ninguém sabia fazer filho e falava um monte, tirava o maior sarro de mim, dizia que minha p.... era fraca. Bom, não preciso falar mais nada, né! Quando ele ficou sabendo que eu ia ser pai de trigêmeos, ficou na dele e quem tirava sarro era eu, perguntando: ‘quem tem p.... fraca?’

Meus amigos na universidade ficaram espantados! Davam risada, ficavam repetindo: ‘trigêmeos!... trigêmeos!... trigêmeos!...’ Esse foi o assunto por uns bons meses na escola. As pessoas queriam saber o que nos tínhamos feito, como é que foi e parará parará. Davam risada, faziam piada, me chamavam pra falar umas coisas. Um professor, grande amigo, deu logo o apelido de ‘ninhada’ pros futuros bebes. As professoras e as secretarias se emocionavam. Todas vieram falar comigo e me olhavam com aqueles olhos de ternura de mãe ou de futuras mães, aquele olhar comprido que só as mulheres têm.

Para algumas era inconcebível alguém gerar trigêmeos de forma natural, sem tratamento. A primeira pergunta que faziam, ao saber da gravidez tripla era exatamente: ‘vocês fizeram tratamento?’ Quando ouviam não como resposta, ficavam espantados e alguns ficavam totalmente incrédulos. É compreensível, numa época em que muitos recorrem a tratamentos para engravidar e acontecem muitos casos de gravidez múltipla, uma gravidez assim natural é que parece a coisa estranha. E é mesmo, a estatística de ocorrência de trigêmeos é de uma gravidez em um milhão ou perto disso. Até hoje encontro um amigo de meu pai, um sujeito muito falante e engraçado, que deve estar na casa dos setenta anos e que a brincadeira dele é essa, comentar a gravidez dos trigêmeos. Todas as vezes que eu o encontro ele fala: ‘mas e ai, que tratamento você fez?’ ou ‘conta a verdade, pode falar que fez tratamento, não conto pra ninguém!’ ou ainda: ‘você não tem cacife pra isso, três de uma vez, sem ajuda!?’ E sai dando risada. Acho que tem gente que não acredita mesmo, fazer o que?

É, nem tudo foi só divertido. Ouvi muita piada de mau gosto também. Mas isso é outra história... E as reações foram mudando da notícia para a barriga da Bia, que ia crescendo a olhos vistos. E isso também é outra história...

maio 02, 2008

A primeira notícia: são 2!!

Mas a notícia não veio assim, de uma vez, logo de cara, são 3 e pronto. Começou aos poucos, foi um susto de cada vez. Uma semana antes, eu estava trabalhando na mesa de jantar improvisada, na verdade era a minha prancheta feita com um tampo de porta que me acompanhava desde a faculdade, esperando pela Bia para irmos fazer primeiro ultrassom. Havíamos nos mudado a pouco tempo de um apartamento pequeno para esse bem maior, onde ainda moramos, e não tínhamos móveis para ocupar todo o espaço. Nessa época eu trabalhava dois dias por semana em casa, escrevendo minha tese de doutorado. Eu estava lá, escrevendo no meu laptop quando Bia passou. Você não precisa ir não, não vai dar pra ver nada mesmo, só um feijãozinho. Deixa para ir nas próximas vezes, fica aí trabalhando. Tudo bem, eu disse. Boa sorte. De fato, não daria para ver muita coisa, apenas umas imagens com sinais difíceis de identificar, exceto por um especialista. Nos beijamos e ela saiu.

Era uma manhã de agosto e a luz na sala àquela hora era fantástica. Enquanto Bia saía, olhei a vista pela ampla janela, um visual esplendoroso, a praça centenária com suas palmeiras imperiais de mais de 40 metros. Nosso apartamento estava na altura daquelas copas gigantes e isso nos encantava. Eu me concentrei no que estava escrevendo e nem percebi o tempo passar. Perto da hora do almoço Bia voltou. Eu sentia uma certa ansiedade para saber as primeiras notícias do nosso futuro bebê. Como foi? Tudo bem, ela disse, colocando na minha frente, sobre a mesa, uma pequena caixa com a marca de uma loja de roupas de criança. Abri e vi um daqueles macacões coloridos que têm os pés, que deixam os bebês engraçadinhos. Lindo, Bia! Ela sentou na cadeira a minha frente e colocou mais uma caixa sobre a mesa, igual à primeira. Nós tínhamos uma vida confortável, mas bastante regrada quando se tratava de finanças. Não dava pra fazer grandes exageros. Mais uma, Bia? Mas já saiu gastando, assim não vai dar, tem que maneirar desde o começo, senão já viu, pô Bia! Fui abrindo a caixa enquanto falava e tirava lá de dentro uma roupinha idêntica à primeira, só que com cores diferentes. Quando levantei meus olhos, Bia estava com seus olhos mareados. Achei que tinha falado demais para uma futura mãe, empolgada com a primeira gravidez. Mas ela tinha uma expressão estranha no rosto. Olhei bem para ela, recostei na cadeira, olhei para as roupinhas na minha frente. São dois? Perguntei, dois? Gêmeos?? Ela fez que sim com a cabeça, sem conseguir segurar o choro. Eu me levantei para abraçá-la, já misturando o choro ao riso.

Saímos andando pelo apartamento falando, rindo, chorando, nos abraçando. Fazíamos perguntas sobre como poderia ter acontecido, se havia antecedentes na família, o que poderia acontecer dali para frente. Só no dia seguinte Bia me contou que teria que fazer outro exame por que seu obstetra ficara na duvida em relação a uma sombra que havia visto mas que seu aparelho não permitia definir. Poderia ser mais um. E essa notícia se confirmou sete dias depois. Seriam 3!!! São 3!!!