maio 31, 2008

O Dr. H!

[Diogo, Laura e Mario]

Quando os trigêmeos completaram 4 meses eu resolvi fazer vasectomia. Não dava pra bobear, né? Se na primeira vez vieram trigêmeos, eu não estava muito a fim de arriscar uma segunda gravidez! Já pensou? Pois é, eu não queria nem pensar!

Conversei com meu sogro, médico, ele achou justíssima a preocupação e me indicou um médico conhecido, o Dr. H.: 'Pode procurá-lo que vai ser tranqüilo'. Tudo bem, lá fui eu pra consulta. Entrei no consultório, cumprimentei, sentei à frente dele. ‘Em que posso ajudá-lo’ ele disse. ‘Quero fazer uma vasectomia’ disse eu. Então ele passou a fazer uma série de perguntas: ‘Quantos anos você tem?’ E eu disse: ’40 anos, fui pai velho, quase pai-avô’, dando uma risadinha pra relaxar. Dr. H.: ‘Quantos filhos tem?’ E eu: ‘Três, tive trigêmeos.’ E o Dr. H.: ‘Qual a idade deles?’ Eu: ‘Eles completaram 4 meses agora.’

Enquanto eu ia respondendo do Dr. H. ia fazendo anotações em seu bloco de notas, apenas fazia uns hum, sei, hum de novo. Eu estava lá tranqüilo, esperando as orientações para marcar a cirurgia o quanto antes. Então o Dr. H. levanta a cabeça, olha pra mim e diz: ‘Não faço a cirurgia em você’. Eu fiquei espantado: ‘Não faz Dr. H., mas por quê?’ Então ele começou a explicação: ‘você é muito jovem, seus filhos são muito pequenos, você tem até poucos filhos, ainda pode querer ter outros, não acho recomendável fazer a vasectomia’.

Eu fiquei indignado: ‘Jovem, mas tenho 40 anos!’ Não quero mais ter filhos, já tenho 3, não é pouco não! Estou há 4 meses sem chegar perto da minha mulher, o senhor quer que eu fique assim pro resto da vida? Por que desse jeito eu não encosto nela nem que me paguem!’ O Dr. H. ainda quis argumentar, mas eu estava tão bravo, fiquei tão nervoso que apenas me levantei, estendi a mão para cumprimentá-lo, agradeci e saí. Dá pra acreditar? O cara não quis fazer a cirurgia! Jovem? Poucos filhos? O cara estava louco!

A primeira coisa que fiz foi ligar pro sogro. Contei o que tinha acontecido, ele deu risada e disse: ‘Deixa comigo’. Alguns dias depois ele me deu o telefone do Dr. Z. e disse: ‘Ligue pra marcar sua cirurgia, já está tudo combinado’. Dito e feito. Liguei, marquei, fui ao consultório, ninguém me perguntou nada e saí de lá um homem novo, feliz da vida, o pai de trigêmeos mais tranqüilo do mundo!

maio 30, 2008

E o Mario viu estrelas!

Logo de manhã eu cuidava do trio. O quarto tinha uma cômoda entre 2 dos berços, onde trocávamos as fraldas e dávamos outros cuidados quando estavam acordando. Eu pegava um de cada vez, fazia o que tinha que ser feito e depois devolvia ao berço. Por muitas vezes coloquei os 3 no mesmo berço pra que eles brincassem um pouco juntos.

Numa dessas manhãs, estou eu cuidando dos 3 numa boa, tudo tranqüilo. Peguei o Mario, troquei a fralda, recoloquei o macacão e o deitei sobre a cômoda. Nisso, o Diogo, no berço do lado direito da cômoda deu uma reclamadinha e me virei pra ver o que era. Dei uma mexida nele, ajeitei e de repente...TUUUMMM...ouvi um barulho horrível! Quando me voltei pra cômoda novamente não achei o Mario...lá estava o menino no chão!

Não tenho como descrever o que senti, o horror, o medo, o frio na espinha. Quando vi o menino no chão, não sabia o que pensar. Quando ele começou a chorar, foi pior. Me abaixei pra pegar a criança que agora abria um berreiro e estava vermelho que nem pimenta. Eu o abracei e ficava dizendo: ‘O que é que eu fiz? O que é que eu fiz?’ Isso tudo aconteceu em não mais que 10 segundos, uma fração micro do tempo, uma distração infeliz. Não sei o que aconteceu, se o Mario se virou sobre a cômoda e caiu, se eu o coloquei muito na beirada, como ele caiu. Só sei dizer que o barulho que ouvi foi terrível, alto, surdo, impressionante, um barulho abafado. Nunca um barulho me causou tanto medo e dor. Sim, porque doía em mim.

Corri pro meu quarto, chamei a Bia, contei o que tinha acontecido e o menino chorando. Eu comecei a chorar junto, desalentado. Bia pegou o menino no colo, ligou pro pediatra, perguntou o que deveria fazer, tentou me tranqüilizar. Mario estava aos berros. Ficou assim por uns 20 minutos. Depois acalmou e ficou quietinho. A recomendação era acompanhar a reação da criança, se ficasse muito quieta, inerte, seria mau sinal. De qualquer modo deveríamos ir ao hospital fazer uma tomografia.

Eu fiquei o tempo todo ao lado do menino, não conseguia largar dele. A tomografia revelou uma pequena fissura na lateral do crânio, nada grave. Ficaria bem em poucos dias. Foi um alívio. Mas o mal já tinha sido feito, não no Mario, que não teria mesmo nada, absorveria aquilo com uma rapidez que só um organismo jovem tem capacidade de fazer, mas em mim, no pai. Nunca me senti tão culpado na vida. Me senti um farrapo, um nada, um irresponsável, um idiota.

Acho que foi, disparado, o pior dia da minha vida. Passei os dias seguintes desconfiando de mim mesmo, da minha capacidade de cuidar das crianças. Evitei pegá-los no colo, tirá-los do berço. O acidente tinha acontecido mesmo com nossos cuidados para mantê-los sempre no chão. Acho que ainda hoje não superei o trauma, acho que jamais vou esquecer aquele dia, aquele som terrível, meu desespero.

Por sorte, crianças com 4 meses de idade não guardam memórias. Mas eu acho que o Mario tem uma memória física do tombo. Ele é bem precavido com algumas atividades, com certas brincadeiras. Quando levanto bem alto nos braços, ele fica todo tenso, demonstra um pouco de medo, coisa que os outros dois não fazem. Mas pode ser apenas coisa da personalidade dele.

Sempre digo que os pais é que estragam a cabeça dos filhos a ponto desses precisarem fazer terapia. Assim, fica provado que os pais são os grandes responsáveis por estragar a cabeça dos filhos, desde pequenos. Outra coisa que eu sempre digo é que a gente dá risada até das piores coisas depois de passado um tempo. Mas dessa ainda não dei risada não, quem sabe um dia...

Flash!

30 dias de blog. Vou inaugurar esta seção em que vou colocar um pouco do que esta acontecendo agora com os trigêmeos. Pois é, do jeito que a coisa anda, vou demorar anos pra contar essa historia com h de hipopótamo! Também, a cada vez que me sento pra escrever sobre uma coisa, lembro de outras 3 ou quatro! Quem sabe uma vez por mês entro com um flash desses. Então lá vai o primeiro.
[Diogo, Laura, Mario e Bia]
Com 4 anos, as coisas são bem diferentes daquilo que tenho escrito. Parece que estou escrevendo as minhas memórias de pai de trigêmeos. Continuamos tendo trabalho, mas é um trabalho diferente. Não falo da tarefa de educá-los para uma vida digna, saudável e prazerosa que é a mais difícil e é tarefa da vida inteira. Falo das outras coisas. Passa-se do trabalho físico para o mental, intelectual. A gente passa de trocar fraldas, dar banho, segurar no colo, trocar de roupa e todo esse cuidado de um serzinho indefeso, para o trabalho de domar uma pequena fera ávida por desvendar o mundo, explorando cada centímetro disponível.
É emocionante olhar pra eles agora e ver como cresceram, como estão fortes, ativos, espertos. É gostoso ver como são carinhosos entre eles e conosco. É divertido ver como brincam juntos, como inventam brincadeiras juntos. Ao mesmo tempo preocupa cada dia mais saber que eles vão enfrentar um mundo bastante difícil de decifrar.

De todo o jeito, olhar pra eles é um grande prazer. Eles são muito felizes, muito alegres, muito calorosos. Eu continuo babando neles, mas não deixo o encantamento embaçar meus olhos a ponto de esquecer que é preciso educá-los para o futuro, que é preciso zelar pelo futuro deles garantindo que alcancem sua própria autonomia. Faz parte daquele amor incondicional de pai que jamais arrefece, ao contrário, só faz aumentar.

maio 29, 2008

Vida selvagem...

Não havia uma vez que saíssemos de casa com os trigêmeos que não fossemos parados na rua. Saíamos do apartamento pra passear de carrinho com os 3, pela praça em frente [a Carlos Gomes], pela praça duas quadras pra cima [no Centro de Convivência] e as pessoas paravam pra ver. Todo mundo ficava encantado. Os trigêmeos exerciam uma atração incrível nas pessoas.

Pro papai low profile aqui, isso, na maioria das vezes, incomodava um pouco. Algumas pessoas eram muito legais, simpáticas, delicadas, sabiam respeitar um espaço de privacidade que deve existir em torno de cada pessoa. Essas pessoas nos deixavam orgulhosos de nossas crias. Agora, certas pessoas eram insuportáveis. Tinha gente que se colocava na frente dos carrinhos – é, nós tínhamos 2 carrinhos, um de gêmeos e um individual – e não nos deixava passar. Era desagradável. Tinha gente que parava o carro e descia pra ver. Lembro de uma senhora que me puxou pelo braço, queria que eu parasse a todo custo pra que ela pudesse ficar olhando os 3.

Nunca mais sair incógnito, sem ser percebido, sem chamar a atenção me incomodava muito e me incomoda até hoje. Se bem que hoje está muito diferente, eles já não chamam tanta atenção assim. Pra maioria das pessoas, os meninos são gêmeos e a Laura uma irmã. Lembro do dia que estávamos subindo a rua em direção ao Centro de Convivência com os 3 nos carrinhos e passou de carro um conhecido que eu não via há muito tempo. ‘Trigêmeos?’ ele gritou. ‘Pois é!’, eu disse. ‘Parabéns! Isso é que é encarar a vida selvagem!’, gritou ele de volta, partindo com o carro. É, estávamos apenas começando nossa jornada na vida selvagem!

maio 28, 2008

A princesa Laura e seus dois príncipes

Eu brincava de contar uma estorinha em que a princesa Laura estava presa numa torre muito alta e que 2 príncipes iriam salvá-la...depois de um tempo era até bem elaborada, mas não registrei e não me lembro mais como era...

Laura tomava conta da cena. Todos a achavam linda. E ela era mesmo. Era a preferida de todos, todos queriam pegá-la no colo, mimá-la, no fundo, brincar um pouco de boneca, que é o que todo mundo gosta de fazer com criança pequena assim. Ao contrário dos meninos, era rechonchudinha e tinha um par de olhos azuis muito vivos. Eu brincava que a natureza era muito sábia e tinha dado pra Laura a única coisa que eu tinha de bonito, os olhos azuis. Já os meninos, bom, não dá pra dizer que eram bebês bonitos. Eram, no máximo, engraçadinhos. E os olhos, segundo a Bia são verdes, mas eu nunca me convenci disso, acho que são castanhos, bem claros, puxam pro verde, às vezes. A sorte deles é que tinham essa coisa de serem muito parecidos.

Interessante essa coisa de ser gerado ao mesmo tempo em que outra pessoa. Nós até hoje não sabemos se o Mario e o Diogo são uni vitelinos. No principio da gravidez parecia haver 3 placentas, mas depois apareciam apenas 2. Eu sempre os achei muito parecidos, mas tem gente que jura que são idênticos. Tem gente que não consegue diferenciar um do outro de jeito nenhum, mesmo convivendo com eles. E isso é da pessoa, não tem jeito. Eu, como sempre fui muito observador e ligado em detalhes, sempre consegui diferenciar os 2. Acho que sempre fui bom no jogo dos 7 erros.

Já com a Laura não tinha isso, ela era diferente, em todos os sentidos. Acho que isso ajudava na eleição da mais querida, da queridinha de todos. Também, pudera, a única menina! A Laura nasceu maior e mais pesada que os meninos e continuaria assim por bastante tempo. Era mais esperta, mais viva, interagia mais com todo mundo. No primeiro ano, fez tudo que uma criança tem que fazer antes dos meninos. Deu um baile nos moleques. Acho que nos anos seguintes também...

maio 27, 2008

Com a cabeça nas nuvens

Pois é, eu achava que dormia mas não dormia nada. Acordando de 2 em 2 horas não dava. Pensa bem, dava mamadeira às 10 da noite, me aprontava pra dormir, o que leva uns 10 minutos, ia pra cama. À meia-noite levantava, a função de mamar levava em torno de 20 ou 30 minutos. Deitava de novo. Levantava às 2 da madrugada, função de mamar por meia hora, deitava. Levantava às 4 da manhã, voltava pra cama às 4 e meia. Quando voltava, porque às 6 da matina eu tinha que estar de pé pra me aprontar pro trabalho. Fazendo as contas, dava pra dormir umas 6 horas por noite, com 3 interrupções pelo meio. Isso é tática de tortura, pra minar as energias, desestabilizar o sistema nervoso central.

Bia e minha mãe ainda conseguiam dormir à tarde, mas eu não gosto muito de dormir à tarde e nem tinha tempo. Ficava o dia todo na universidade e ainda tinha que trabalhar na tese. Às vezes tinha que ficar até mais tarde na faculdade e voltar dirigindo era difícil, às 6 da tarde eu já estava um prego. Sorte que a estrada era bastante movimentada e não dava nem pra piscar. Eu ainda usava o artifício da música alta e do Halls, aquele drops que refresca até pensamento.

O incrível é que era só colocar o pé em casa pra aparecer uma energia sabe-se lá de onde. Ficava louco pra ver as crianças, saber das novidades, como tinham se comportado, se estavam todos bem. Eu olhava o quadro com as informações do dia que formava um retrato do funcionamento físico dos 3 e refletia no humor de cada um. Todo dia tinha uma estorinha de um ou outro, o desenvolvimento desses pequenos é incrivelmente rápido. Eles mudam todos os dias, aprendem coisas todos os dias.

Em compensação, eu não estava dando conta do recado na faculdade, apesar de que ninguém nunca me disse nada, nenhum aluno reclamou, deu um toque, nada. Mas tenho quase certeza de que devo ter dado a mesma aula durante os 4 meses do semestre, ou quase isso. Como sempre, eu entrava na sala, passava as coordenadas do exercício, discutia com os alunos as variáveis, as dúvidas e mãos à obra, os alunos tinham atividades durante toda a manhã. Acompanhava o trabalho deles e no final da aula, avaliávamos o que tinha sido feito. No final do semestre, costumava pedir a entrega de todos os trabalhos para avaliação final. E foi aí que me surpreendi, as pastas tinham os mesmos exercícios feitos repetidamente, sempre mais do mesmo.

Foi meio chocante perceber isso. Eu me perguntava o que tinha acontecido ao longo do semestre, mas não adiantou nada, não descobri até hoje. Mas olhando pra trás agora, entendo que não dava mesmo pra seguir o padrão de qualidade que eu mesmo me cobrava antes dos trigêmeos. O semestre seguinte foi bem melhor. Escrever e estudar pra tese então, nem pensar. Acho que só retomei o trabalho no final do ano, em outubro. Eu estava fisicamente um trapo, mas emocionalmente em outra esfera, com a cabeça nas nuvens, em outro planeta. Só conseguia pensar numa coisa: nos trigêmeos!

maio 26, 2008

Mario? Que Mario?

Uma passagem marcou o estado em que ficamos nesses primeiros 4 meses. Numa das mamadas da noite, levantamos para ir dar o leitinho das crianças. Um deles sempre acabava antes, era trocado e pronto, berço e soninho. Nessa noite eu devo ter pego o mais rápido e fui fazer alguma coisa na cozinha. Acho que eu tinha dado leite pro Mario. Era comum que um de nos levantasse um pouco depois. Nessa noite foi a Bia. Ela entrou no quarto dos trigêmeos, pegou uma das outras duas crianças e estava dando leite ao lado de minha mãe, que alimentava o outro. Então a Bia pergunta pra minha mãe: ‘O Mario já mamou?’ e minha mãe: ‘Mario?’ E a Bia: ‘É Guguta, o Mario já mamou?’ e minha mãe de novo: ‘Mario? E tem Mario?’ Bia arregalou os olhos, parou um minuto e perguntou se minha mãe estava bem. ‘Estou’ ela disse. ‘Então Guguta, o Mario já mamou?’

Ai foi uma gargalhada só! Minha mãe deve ter acordado do sono em pé em que estava, meio sonâmbula, sabe-se lá. Quando cheguei ao quarto não entendi nada, mas tive que confirmar se o Mario tinha mamado ou não. Depois fui dormir porque pegava no batente bem cedo. Acho que é o melhor retrato do nosso estado de espírito, quase em vigília por 4 meses. Bia adora essa estória, conta sempre. Com certeza ela vai me dizer depois que não foi assim. Mas toda história tem suas versões, até essas com h de hipopótamo.

maio 25, 2008

Nana nenê: a hora do berço

Outra coisa na qual precisávamos que eles tivessem autonomia era na questão sono. Imagina se nós os acostumássemos a dormir no colo! Estaríamos perdidos! Não haveria colo pros três ao mesmo tempo! Então, desde o começo partimos do principio que cada um teria que dormir no seu berço e nos esforçamos pra educá-los assim. Pois é, nós achamos que dormir é uma questão de educação. São os pais que determinam os padrões que devem ser seguidos.

Não importava o que estivesse acontecendo, se a criança estava chorando ou não, nos os colocávamos no berço, sempre no mesmo horário. Quando eles são bem pequenos, não tem problema, mas depois, eles vão crescendo um pouco e vão manifestando suas vontades. Na verdade lês querem ficar com os pais o máximo de tempo possível. É a curiosidade que mata o gato: o que será que eles fazem quando eu vou dormir? Aí começam os problemas e não foi muito fácil educar os três ao mesmo tempo. Laura era a que mais chorava e dava trabalho pra dormir. E olha que eles sempre dormiram juntos, no mesmo quarto. Os meninos eram mais fáceis, quando colocávamos no berço eles ficavam, sem dar trabalho. E ainda por cima agüentavam a Laura chorando.

Era difícil agüentar, ficar ouvindo choro, resistir à tentação de pegar no colo, tirar do berço, ninar, balançar. Mas eu estava determinado e fui duro com a Bia, tínhamos que agüentar firme. Uma das coisas que mais nos ajudou foi ler um livr fantástico, chamado Nana Nenê [Eduard Estivil, Martins Fontes]. É um trabalho cientifico sobre sono de crianças que defende que dormir é um hábito que envolve rituais como as refeições (sempre mesmos horários, sempre mesmos lugares, requer preparações). Na verdade, o autor criou um método que funciona. E nós seguimos à risca! Para que a criança adquira esse habito, é preciso criar rituais agradáveis. Mais importante, enquanto ela aprende esses rituais, é preciso deixá-la chorando, no berço, até que se acostume. No fundo, é dormir também é uma questão de autonomia para a criança, uma vez que ela não quer ficar sozinha.

Quando dizíamos pras pessoas que estávamos usando o método do nana nenê, as pessoas ficavam horrorizadas, achavam que éramos pais desnaturados, cruéis, que o tal método maltratava as crianças. Isso rendeu muitas discussões acaloradas. Lembro de um desses debates com umas amigas da Bia em que uma delas ficou irada comigo, que não acreditava como eu tinha coragem de deixar uma criança chorando no berço sem fazer nada. Mas eu vejo até hoje gente que tem problemas com sono de criança, de criança que vai pra cama dos pais, de criança que chora a noite toda, de criança que vai dormir à meia-noite. Crianças de 2 ou 3 anos e até mais velhas, de 7 ou 8. Vejo os pais sofrendo e tendo o retorno das escolhas que fizeram. Fizemos uma escolha e isso funcionou pra nós, não significa que vai ser bom pros outros.

O tempo passa e, de fato, a gente só guarda as coisas boas mesmo. Não me lembro quanto tempo levou pra estabelecer o ritmo da hora de dormir, do sono, acho que tivemos que reforçar os rituais algumas vezes enquanto eles cresciam. Só me lembro que eles dormiam muito bem, sempre dormiram, dormem muito bem até hoje e que o trabalho que tivemos, a firmeza com que lidamos com a situação valeu a pena. Quando perguntam sobre sono, se eles dormem bem, sempre digo que nunca tiveram problemas pra dormir. E é verdade, se considerarmos que passamos por um processo de treinamento e adaptação. Eu recomendo fortemente a leitura do Nana Nenê.

Nós ‘maltratamos’ os nossos trigêmeos, mas hoje eles dormem bem, nos deixam dormir bem, dormem em qualquer lugar e até viajam sozinhos com os avós, sem dar um só problema. Eles vão pra cama entre 7 e meia e 8 e meia eles, depende do dia, das atividades que tiveram, do cansaço deles. Vão pra cama praticamente sozinhos. Claro que de vez em quando protestam, mas nada que filhos normais não façam com seus pais.

maio 24, 2008

Bebês com autonomia

Dar a mamadeira e trocar as fraldas eram as coisas que mais fazíamos. Eles mamavam de 2 em 2 horas, portanto 12 mamadas por volta de 100, 120ml cada uma e trocavam de fralda pelo menos 8 vezes por dia. Eu fiquei craque nesse negócio de trocar fraldas, trocava até de olhos fechados, trocava uma fralda em segundos. Agora o leite demorava mais um pouco, por que dependia do ritmo de cada um mamar.

Sempre achei que criança tem que ser educada pra ter autonomia. Eu gostava de inventar coisas que nos facilitassem a vida. Um bebê com autonomia? Uma criança de 4 meses pode ter uma autonomia relativa e proporcional à sua idade. Uma das medidas era fazer tudo no mesmo horário, para os três. Nós acordávamos os três pra mamar, dávamos banho no mesmo horário, trocávamos no mesmo horário, pra tudo eles tinham os mesmos horários.

Com a mamadeira não foi diferente. Por algum tempo eu conseguia dar mamadeira pra dois ao mesmo tempo. Como eles ficavam no chão, era fácil. Eu os colocava lado a lado, apoiava a cabeça deles em almofadas, me ajoelhava em frente a eles e segurava as duas mamadeiras na boca de cada um. Se eu estava sozinho nessa hora, o terceiro esperava um pouco, senão alguém dava o leitinho.

Um dia resolvi tentar dar a mamadeira pros 3 ao mesmo tempo. Coloquei os três um ao lado do outro. Apoiei a cabeça deles em travesseiros. Coloquei a mamadeira na boca de cada um e coloquei as mãozinhas deles segurando. Depois fiz uma espécie de calço, um apoio com uma fralda de pano por baixo da mamadeira, no peito da criança. Deu certo! Funcionou super bem. E eles passaram a mamar sozinhos, só precisavam de supervisão. Logo eles aprenderam a segurar a mamadeira sozinhos e tinham a autonomia que eles poderiam ter pra mamar.

maio 23, 2008

Bem, bem, bem pequena mesmo!

Já que estamos falando do Diogo e suas mazelas, coitadinho do pequeno, ficou na berlinda, vamos falar de outra coisa curiosa. Desde logo sabíamos que os três nasceriam miudinhos. Então minha irmã que mora no Colorado achou umas fraldas especiais para prematuros. Eram umas fraldas muito, mas muito menores que as fraldas de recém-nascidos que encontrávamos aqui. Acho que eram mais caras também. Ela nos mandou três pacotes que deviam ter 24 fraldas cada um. Usamos todas com o Diogo, que era o menorzinho dos três.

Achei uma dessas fraldas guardadas, pena que não tenho mais nenhuma fralda pequena comum para fazer a comparação. Tirei uma foto da fralda com uma caneta BIC ao lado pra dar uma noção do tamanho. É pequena mesmo. E não vá pensando que a fralda caía como uma luva nele não. Ainda faltava recheio, dá pra imaginar? Hoje, olhando pro menino, ninguém diz...

[pode acreditar, é uma BIC normal!]

Diogo e a Leoa

Estávamos curtindo a chegada do Diogo em casa e os 3 juntos. Apesar do trabalho ter aumentado e agora corresponder a realidade, ou seja, o trabalho para cuidar de trigêmeos, estávamos adorando. Foi uma fase de conhecimento, já que não sabíamos como era cuidar dele o tempo todo. A Laura sabíamos que era curiosa, ativa, e reclamava pra valer. O Mario era muito bonzinho e não reclamava de nada. O Diogo logo mostrou sua personalidade forte, de quem sabia o que queria e sabia protestar quando não estava de acordo.

Passados alguns dias ele começou a reclamar com mais freqüência e mais firme. Depois parou de mamar como nos dias anteriores e então passou a ficar mais quietinho. A Bia comentava que ele não estava bem, que tinha qualquer coisa errada. Eu dizia que ele era assim mesmo, que estava tudo bem.

Chegou o fim de semana e no domingo fomos passar o dia na casa dos pais da Bia. Ela estava muito preocupada. De fato, o Diogo estava muito quietinho, derrubado. Não queria mamar, não chorava, não reagia a nada. Só então eu percebi que havia alguma coisa. Ela ligou para o pediatra que, por sorte é primo dela, explicou o que estava acontecendo. Ele disse que logo chegaria pra examinar o Diogo. Bia estava uma pilha. O Dr. Luis entrou, examinou e recomendou fazer um raio x dos pulmões. Bia foi com Diogo pro hospital e eu fui pra casa com os outros dois e minha mãe.

Foram momentos de tensão e angústia. Fui pra casa desalentado mas ocupado com Laura e Mario. Bia ligou dando notícias. O Diogo ficaria no hospital, diagnostico: pneumonia. E o estado era delicado, a infecção estava em estado avançado e o menino bastante afetado. Eu fiquei desolado. Bia estava arrasada. Não deu nem tempo de curtir o moleque em casa e ele já estava de volta ao hospital. Foi horrível. Apesar de estarmos muito bem amparados pela equipe de neonatal do hospital, que era muito boa, a aflição era inevitável. Mas os dias se passaram e o Diogo, medicado e com cuidados especiais, logo melhorou. Em uma semana estava de volta e reunido aos irmãos. O menino mostrou ser forte, guerreiro. Ele tinha a experiência de se virar sem os pais sem os irmãos, coisa que os outros dois não sabiam o que era.

A pneumonia do Diogo serviu pra me mostrar a diferença entre o que é ser mãe e o que é ser pai. Nessas horas a mãe sente, pressente, intui que algo errado esta acontecendo com sua cria. Eu não percebi nada ate o último momento, quando vi a Bia demonstrar um certo desespero. Se não fosse a insistência da Bia, não sei se o Diogo se recuperaria. A mãe conhece seu filho como ninguém, a relação entre eles é, literalmente, umbilical, de umbigo mesmo, de ventre, gestada lentamente durante os meses de gravidez. O pai é um coadjuvante de luxo, um espectador privilegiado. Bia virou uma leoa e eu assisti aquilo quase impotente, estarrecido com sua energia, impressionado com sua intuição.

Por essas e outras é que existe aquele ditado: ‘Mãe é mãe, o resto é tudo...’

maio 21, 2008

Todo mundo no chão

Logo percebemos que seria muito mais fácil cuidar deles no chão. Não tinha espaço pra todo mundo encima do trocador e os berços eram incômodos pra trocar de roupa e fraldas. Fraldas! Acho que nesse começo eram 15 por dia, por cabeça! Então, estendíamos uns edredons bem macios e altos no chão e colocávamos os três ali. Eles passavam boa parte do dia no chão. Eles tinham que tomar sol todos os dias, coisa de 15 minutos e como temos umas janelas grandes na sala que tem face norte [sol quase o dia todo] deixávamos os 3 no chão tomando sol peladinhos. Ficavam lá, os três, quase pele e osso, uns ratinhos pelados, rosadinhos, frágeis, lindos...
Eu literalmente babava por eles, sobre eles. Acho que essa foi uma das melhores estratégias que adotamos pra cuidar deles. Era bem mais seguro para eles ficar no chão, sem o perigo de cair no chão de alguma altura. E eles ficavam muito bem, acho que gostavam do chão. Ali eles aprenderam a rolar, a ficar de bruços, a levantar a cabeça e o pescoço, a sentar, a mamar segurando a mamadeira...O chão era nosso porto seguro. Tenho muitas, mas muitas fotos mesmo do 3 no chão. Vou mostrando algumas agora e mostro outras mais tarde.

Os trigêmeos enfim reunidos

[Diogo, Laura e Mario]

Depois de quase dez dias de visitas diárias à maternidade, finalmente chegou o dia de levar o Diogo pra casa. Acho que era dia 17 de abril. Talvez tenha sido o dia de maior alegria dos primeiros dias, se é que se pode destacar um fato quando se está mergulhado num oceano de felicidade. Chegamos em casa com ele e reunimos os três. A macacada reunida. Tem uma música com esse refrão e eu cantava sempre que chegava em casa. Só o refrão porque não sei o resto. Apesar de gostar de música e ser bem afinado, sou ruim de guardar as letras.

Bom, com todo mundo em casa, começaria de fato a nossa maratona. Aí sim o oitavo andar do edifício Ceres abriria para funcionamento 24 horas. Diariamente tínhamos uma agenda a cumprir. As auxiliares eram 2. Uma babá, a Carioca, que já havia trabalhado com a Bia no hotel e a Elázia, encarregada dos serviços gerais. Na verdade elas faziam o que fosse necessário, uma ajudava a outra, ou as vezes uma atrapalhava a outra, mas o importante era cuidar das crianças e garantir o conforto delas. Fora isso, recebíamos uma terceira ajudante 2 vezes por semana para passar roupa e fazer uma faxina pesada onde fosse necessário.

[Elazia e Erlane (Carioca)]

Minha mãe, a vovó Guguta, mudou de mala e cuia pra nossa casa e só saiu depois de 4 meses. Além de orientar as nossas ajudantes nos cuidados com os bebês, ela passava a noite nos ajudando com as mamadas. A vovó Maria, mãe da Bia, vinha todos os dias a tarde pra dar uma mão. E as visitas que apareciam acabavam ajudando, não tinha jeito. Era botar o pé no apartamento e logo sobrava uma criança no colo, uma mamadeira, uma fraldinha pra trocar.

O movimento era tão grande, era tanto entre e sai de gente, eram tantos turnos que precisamos organizar uma tabela com o que estava acontecendo com cada criança. Comprei uma lousa branca, pintei com tinta esmalte uma tabela com os nomes dos 3 e íamos marcando os horários das mamadas, das trocas de fraldas de xixi e coco e do complemento de ferro que eles tomavam diariamente. Isso funcionava muito bem e dava pra saber quanto cada um estava tomando de leite, por exemplo. E as mamadas eram incrivelmente pequenas, coisa de 10 ml, 15 ml por vez, por cabeça. Eles mamavam e logo caiam no sono.

[xx = xixi; cc = coco; PD, PE = peito direito/esquerdo; horario; quantidade ml]

Nós tínhamos que acordar de 2 em 2 horas pra dar o leitinho deles. Dávamos uma mamadeira as 10 da noite e íamos pra cama. Então acordávamos no mínimo 3 vezes por noite: a meia-noite, as 2 e as 4 da madrugada. As 6 horas da manhã eu já estava pronto pra sair de casa. A cada mamada era uma troca de fralda, pra garantir o mínimo de conforto e evitar vazamentos indesejados que dariam trabalho pra trocar a roupinha deles e talvez a roupa de cama. Vez ou outra um dava uma golfada daquelas que deixa um cheirinho azedo que...nunca pensei que diria isso, mas dá uma saudadezinha desse cheirinho...

Nos 40 primeiros dias, Bia dava o peito alternadamente para cada um dos três. A cada mamada um era o escolhido pra ficar com a mamãe. Mas não era fácil, era estressante pra ela e eles começaram a cahr mais fácil tomar da mamadeira. Sem problemas. Eu comprava latas e latas de leite NAN, o negócio ficava caro. Meus fornecedores eram o Makro e uma farmácia perto do Bosque [bairro de Campinas] que era conhecida por oferecer um bom preço pra esse leite. Acho que foi uma maneira que o dono encontrou de ajudar as pessoas que precisavam comprar esse leite, uma ação humanitária. O preço dele era imbatível.

Contrariando as recomendações do fabricante, que diz que a preparação deve ser feita imediatamente antes de tomar o leite, nós preparávamos a quantidade necessária para as mamadas da noite e para as mamadas do dia. Na lata vem prescrita a relação entre medidas do pó e água. Fiz o cálculo de acordo com o tamanho de umas jarras com tampa de rosa que comprei, misturávamos, chacoalhávamos e deixávamos na geladeira. As mamadeiras da noite ficavam encima da cômoda, no quarto dos tri.

[vovo Maria e vovo Guguta preparando as mamadeiras]

Dá pra imaginar como ficamos, Bia, vovó Guguta e eu. Uns cacos. Bia ficou em casa nos 4 primeiros meses, mas eu ia trabalhar. Apesar de ficar praticamente acordado a noite toda, uma energia extra apareceu não sei de onde e fui tocando a vida em frente. A única coisa que não deu pra mexer nesses 4 meses foi na tese, o quarto filho. Mas essa era nossa tarefa principal. E pra que isso funcionasse no azeite, tínhamos um planejamento, uma certa logística. Caldeirões pra escaldar os utensílios, as 24 mamadeiras, recipiente para guardar tudo. Era um arsenal de coisas.
E estabelecemos horários pra tudo: banho, passeio, banho de sol e por ai vai. Desde o inicio os trigêmeos faziam tudo no mesmo horário. Do contrário, ninguém agüentaria.

maio 20, 2008

Nota muito importante!

Ola aos leitores do blog.
gostaria de informar a todos que respondo os comentarios no proprio blog. Assim, se voce fez um comentario em algum post, procure por uma resposta naquele mesmo post.
Obrigado por acompanharem o blog.
Forte abraco,
Octavio

Quem bebeu isso?

Bom, em mais uma semana estaríamos com a trupe completa. Ter 3 bebês em casa não é uma coisa que muita gente saiba como lidar, não tínhamos um manual e nem pra quem pedir dicas. Fomos inventando estratégias para deixar tudo o mais prático possível. Eram estratégias de sobrevivência. Tudo era feito no atacado e precisava de planejamento anterior para não atrapalhar o andamento da casa.

Mas, antes de contar como funcionava nossa casa pra cuidar dos trigêmeos, tenho que contar uma outra estória que um grande amigo me lembrou nesse fim de semana. Encontrei alguns grandes amigos nesse sábado, na tradicional feijoada do Mario [foi ele que emprestou os berços pros meninos]. Acho que eu não os via há um ano. Um deles, o Nuno, me fez lembrar de uma coisa que eu já tinha esquecido, mas que, olhando pra trás agora, foi um marco na passagem da vida de casal para a vida de pais de trigêmeos. Pelo menos pra mim, isso foi uma coisa chocante.

Desde que eu me casara com Bia me encarreguei de fazer as compras da casa. Além de ter mais tempo pra isso, eu era mais objetivo e, por conseqüência, mais econômico. Fora o fato de gostar de ir ao mercado, à quitanda e essas coisas herdadas de meu pai, que aos sábados me levava com ele ao mercado pra comprar alguma coisa diferente que seria preparada nos almoços do fim de semana. Então, eu sabia o quanto gastávamos e o quanto consumíamos de cada produto, o tempo que cada um durava, etc. Já nessa época comprava no Makro, porque sempre achei que valia a pena comprar no atacado.

Então, um dia de manhã, saindo pra Universidade [e eu saía cedo, por volta das 6:15 da matina, porque tinha uma viagem de 50 minutos pela frente], coloquei um detergente novo na pia da cozinha. Um detergente desses normais, 500 ml, tipo ipê, amarelo. Passei o dia trabalhando, dando aulas [que nesses primeiros dias devem ter sido sofríveis, e eu lá tinha concentração pra dar aula???] e quando cheguei em casa, o detergente estava no fim. Não estou exagerando não, não era pela metade, estava no fim, no osso, coisa de meio dedo no fim do frasco. Eu olhei aquilo e fiquei alucinado, transtornado. ‘Cadê o detergente’, perguntei. ‘Que detergente?’, Bia respondeu. ‘O detergente, oras, aquele que coloquei aqui hoje de manhã?’, eu disse. ‘Mas é esse mesmo’, respondeu Bia. Cara, fiquei maluco e sai dizendo que não era possível, que assim ia ser inviável, que não dava, que deveria ter alguém bebendo detergente, onde já se viu um detergente inteiro em um dia?

Mas era isso mesmo, a realidade era essa e seria assim por muito e muito tempo. Eu e Bia, sozinhos, usávamos um detergente por mês. Talvez durasse até mais de um mês, dependendo do que fazíamos de refeições em casa. Do dia pra noite, passamos de 1 detergente por mês pra 1 por dia!. Era pra ficar louco, não era? Eu fiquei. Teria que comprar um detergente por dia, 30 por mês? Que loucura era essa? Dei uma bronca tão grande em todo mundo, fiz um discurso tão forte sobre economia doméstica e que assim não daria pra manter a casa que conseguimos chegar a 5 detergentes por mês fazendo muita economia. De qualquer jeito, acho que foi aí que caiu a ficha de que manter nossa casa agora seria muito, mas muito mais dispendioso. Afinal, tínhamos um casal, 3 crianças [o Diogo chegaria logo], duas avós, duas mocas trabalhando, fora as visitas. Passamos de uma casa onde vivia um casal para uma casa com 6 adultos e 3 crianças. Fácil, não é???!!!

Devo ter chegado à Universidade no dia seguinte irado, soltando os bofes pelas ventas. E, claro, contei isso pra todos os amigos, meio num desabafo. O Nuno me lembrou dessa estória nesse sábado, dando risada. Eu fiquei arrepiado e dei boas risadas com a lembrança. Não sei quantos detergentes se usam em casa hoje, apesar de continuar sendo o comprador oficial. Acho que por volta de 3 por mês...é, as coisas mudam...

maio 19, 2008

Eles eram tão miúdos...

[Diogo ainda na maternidade]

[Laura tomando um leitinho]

[Mario tomando banho]

Os três eram muito pequeninos mesmo. Mas a gente vai se acostumando com as crianças e se afeiçoando a eles. Eu nunca achei criança com dias de nascida muito bonita. Como diz meu cunhado, todos têm a mesma cara, cara de joelho. Some-se a isto o fato dos trigêmeos serem prematuros e, pronto, dá pra imaginar que eles eram uns ratinhos de pelúcia com pouco enchimento e meio amassados.

Eram tão miúdos que dava pra segurá-los no antebraço, com a cabeça apoiada na mão. E não faltaram ocasiões para isso, especialmente nos banhos. Eram tão pequenos que fomos a primeira consulta do pediatra com Laura e Mario no mesmo moisés.

Mas, eram trigêmeos e isso fazia a diferença. Quando a ninhada estava reunida, o conjunto ficava lindo. Bem, ficaria em breve. O Diogo ainda ficou no hospital por mais 15 dias. E a nossa angústia por tê-lo longe de nós aumentava dia a dia. A reunião dos 3 demorou mais um pouco.

A primeira semana em casa e a primeira consulta

Foi muito bom chegar em casa com as crias. Finalmente a família reunida em sua toca. Mas também não vou negar que o começo foi muito difícil. Os dois que saíram do hospital conosco eram pequenos, em torno de 2 quilos, esse foi o limite colocado pelo hospital pra gente leva as crianças pra casa. Apesar disso, o Mario saiu com 1 quilo e 900. Pois é, um cisco de gente. E fomos nós, com a cara e a coragem.

A nossa estrutura era a seguinte: duas ajudantes, uma babá oficial e uma para serviços gerais. Na prática, as duas faziam de tudo. Alem disso, as duas avós estavam lá diariamente. Minha mãe mudou lá pra casa e saiu só depois de 4 meses. Bia ficaria em casa nesses 4 primeiros meses, de licença maternidade. Eu voltaria a trabalhar logo na primeira semana. Logo, fomos montando nossas estratégias de como lidar com a ninhada da maneira mais prática possível. Fui logo comprando coisas por atacado: 6 mamadeiras pra cada um, 2 chupetas, fraldas e mais fraldas de pano, latas e latas de leite. Fraldas, compramos poucas. Lembra-se? Ganhamos um estoque para cerca de 4 meses no chá das fraldas.

A primeira semana foi relativamente tranqüila. Laura e Mario não davam trabalho, dormiam bem, não choravam e Bia conseguia dar o peito pros dois. Nós também dormíamos muito bem. Íamos diariamente visitar o Diogo, que ficara na maternidade. Eu voltei a trabalhar e, efetivamente, foi uma semana mais de oba oba do que de trabalho de fato. Meio tresnoitado, eu ia feliz para o trabalho, orgulhoso da prole. Na volta, dava uma passada para ver o Diogo. Ele ia ganhando peso e a previsão era de que sairia do hospital em 10 dias. Estávamos felizes tudo andava bem.

Até que chegou o dia de ir ao pediatra. Fomos nós, felizes e pimpões. Entramos na sala, o pediatra pergunta como estávamos, como ia a lida e tal. Nós, felizes da vida, dissemos que as crianças estavam ótimas, que não davam trabalho, que dormiam muito bem. Então vamos examinar a Laura, diz o pediatra. Aperta dali, vira, cutuca, olha, check up geral, ok. Agora, vamos ao Mario. E a mesma coisa, vira e revira o moleque, ok. Então ele se vira pra nós e diz: ‘Não quero assustar vocês, mas as crianças estariam ótimas não fosse a pouca alimentação.’ Nós arregalamos 2 olhos, não 4 olhos: ‘Mas como? Eles mamam direitinho...’ O pediatra, com a maior calma: ‘Eles estão dormindo bastante e não choram porque estão sem forças...na verdade, eles estão apresentando um certo estado de subnutrição.’

Dá pra imaginar a ducha de água gelada que levamos. Eu queria morrer. Nossa, mais um a semana esses dois estaria desnutridos. Dois incompetentes, irresponsáveis, como é que pode deixar duas crianças nesse estado?! Recomendação do pediatra: mamada de 2 em 2 horas, sem choro nem vela, pelo menos nos primeiros 4 primeiros meses. A partir de então, nossa casa funcionou, literalmente 24 horas por dias, sempre tinha uma luz acesa, alguém acordado, alguma atividade acontecendo.

maio 18, 2008

Para abrir em 2019!

A outra coisa que fiz foi ir a uma banca de jornal e comprar as revistas daquela semana. Comprei uma veja, uma isto é, uma Exame, uma Claudia, uma Placar, uma revista de cada assunto e fiz um grande pacote de papel pardo. Amarrei com barbante e escrevi:

‘Para Diogo, Laura e Mario, para abrir em 30 de marco de 2019’.

Ou seja, para abrir quando eles tiverem 15 anos. 4 anos já se passaram...nossa! O tempo passa rápido...passando devagar...coisa estranha esse tempo! Vamos ver se vai funcionar. Sei lá o que vai ter dentro do pacote quando o abrirmos, tudo pode ter se esfarelado, virado pó, ou amarelado, desbotado, tornando as revistas ilegíveis. Mas a idéia era marcar o evento do nascimento deles através de um recorte de tempo e a maneira que encontrei foi através das publicações daquela semana. Vai ser interessante, pelo menos pra mim, ver o que se passava naquele momento. Acho que pra eles vai ser, no mínimo, curioso.

maio 17, 2008

Gêmeo do gêmeo do gêmeo

Uma das coisas que fiz enquanto estava na maternidade foi tirar as certidões de nascimento. Olhando agora com atenção, fiz isso logo no dia seguinte, 31 de março. O hospital me entregou uns papéis certificando o nascimento dos trigêmeos e lá fui eu pro cartório. Acho que eu devia estar louco pra sair um pouco do hospital, respirar um pouco, andar. Lembro que fui a pé, caminhando. Isso era uma coisa que na época eu ainda fazia, caminhadas, trekkings. Bons tempos...Achei curioso que na certidão de cada um deles estava escrito o nome e ao lado a indicação trigêmeo. Não sabia disso. E logo abaixo, indicava de quem era gêmeo, aparecendo os nomes dos outros dois. Assim: Diogo, gêmeo de Laura e Mario. Interessante ter que especificar isso na certidão.

Mexendo nesses documentos encontrei até o recibo de quanto paguei pra lavrá-las, como se diz no cartório. Gosto de guardar essas coisas. Um dia alguém vai olhar pra isso com algum interesse. Isso é um hábito de família. Eu tenho a primeira carteira de motorista de meu avô paterno, o Mario, nascido em 1898. A carteira, que hoje deve estar guardada numa das caixas que tenho no maleiro do meu armário, deve ser de 1920. E essas caixas estão cheias de documentos antigos dos meus avós e do meu pai. Ate do meu bisavô paterno, que se chamava Domingos, eu tenho uma carteirinha do Fluminense, clube em que ele era sócio. A carteirinha é numero 21, veja só. Tenho umas papeladas da primeira empresa que meu pai teve, a Repair. Eu gosto desses pedaços materiais das estórias familiares, acho que ajudam a compor um quadro do que foi a vida dos nossos antepassados.

Quem sabe, um dia, os trigêmeos vão se interessar pelo passado deles próprios.

maio 16, 2008

Antes de todos

Se há uma pessoa que viu os trigêmeos antes de todo mundo, essa pessoa foi o Dr. André. E não estou me referindo só a hora do parto não. Estou falando dos primeiros indícios da gravidez, quando eles eram, como dizia a Bia, só umas sementinhas. Foi ele quem viu as duas sementinhas e uma sombra, que poderia ser o terceiro. Ele conhecia os três como ninguém. Nem sei quantas vezes ele os viu antes de nascerem. E quando os três chegaram ao mundo, ele estava lá para recebê-los.

[Dr. Andre e seu pai trazendo a luz os trigemeos]


Desde a segunda consulta, eu acompanhei a Bia a todas as outras. Acho que não faltei a nenhuma. Sei lá quantas foram, uma a cada 15 ou 20 dias, umas 16 consultas. Será? Bom, não importa. No início eu era um mero coadjuvante, acompanhando a Bia, que o Dr. André conhecia a anos. O que acontece é que você vai criando um vínculo com o médico. Há pelo menos 2 momentos numa consulta em que o futuro pai fica sozinho com o médico: quando a grávida vai trocar a roupa para o exame e quando vai se vestir depois do exame. Nesses espaços de tempo, entre 5 e 10 minutos, também não interessa saber com precisão, eu ficava lá com o Dr. André.

E ele ia falando coisas, ia dando toques, perguntando como eu estava. Na verdade acho que ele ia me preparando para o que viria pela frente, sempre aos pouquinhos. ‘Daqui a pouco vai ser assim’, ou ‘Em dois meses passou essa fase’ ou ainda aquele discurso que acho que já contei ‘Agora todo cuidado é pouco, não pode bobear, senão perdemos tudo o que fizemos até agora’. Lá pelo meio da gravidez da Bia, eu já ficava esperando o dia da consulta com ansiedade, porque o Dr. André era uma espécie de cúmplice, um confidente. Ele participava intimamente do processo todo e eu podia contar a ele o que estava se passando comigo, fazer minhas confidencias que eu não podia fazer pra mais ninguém. Afinal, ele sabia o que eu estava passando, passo a passo. Acho que ele fez um trabalho e tanto [não só com a atriz principal, Beatriz, mas com o coadjuvante também, o papai aqui], super profissional e super carinhoso ao mesmo tempo. Muito franco, aberto, direto, mas sempre como muito cuidado e cautela.

Claro que eu me divertia bastante com ele também. Ele é uma figura engraçada. Alto, deve ter em torno de 1,90, magro, praticante de corridas de longa distância como maratona e outros enduros, ou seja, um atleta de alta performance, nas horas vagas. Curioso como alguém que é medico e enfrenta situações cotidianas no mínimo delicadas [pra não dizer estressantes], pois trata da vida, da tênue linha que separa a tristeza da felicidade, encontra distração em esportes que exigem altíssimo rendimento e preparo físico extremo. Mas, como eu ia dizendo, me divertia com ele. Não que ele contasse piadas nas consultas, talvez tenha contado uma ou duas, mas o jeito dele falar, quando ficava um pouco mais ansioso ou apreensivo, me fazia dar boas risadas depois.

Na sala de parto, fiquei impressionado com sua tranqüilidade e com a grandeza de sua tarefa. Rapaz, trazer vidas ao mundo é uma coisa incrível! É algo quase de outro mundo! Eu fiquei observando o trabalho dele e do pai [pois é, os dois são obstetras e trabalham juntos, não é demais?] e achei uma coisa maravilhosa, admirável. Eu jamais havia pensado antes o que significava ser médico, especialmente um médico que ajuda a dar a luz, a colocar criaturas no mundo. Isso é muito emocionante, forte. Acho que é a área agraciada da medicina porque lida com as esperanças do futuro, as perspectivas de uma nova vida, os sonhos, os desejos, os anseios em potência naquele novo serzinho que inicia sua aventura pela vida.

Tenho uma grande admiração e um carinho muito grande pelo Dr. André. Jamais pude agradecer a altura o que ele fez por nós, especialmente pela Bia e pelos trigêmeos. Ele se tornou um amigo, um grande amigo, meu e de toda a família. Recentemente eu o encontrei num sábado de manhã. Convidei-o para um café para colocarmos os assuntos em dia e, apesar da minha insistência para pagar, não consegui. Ele estava, como sempre, com o astral elevado, animado com seus novos projetos e viagens de atleta mundo afora. Fiquei feliz e emocionado em revê-lo. Afinal, ele tem um papel importante na história desses trigêmeos!

maio 15, 2008

A temporada na maternidade

Acho que ficamos 5 dias na maternidade, no Hospital Vera Cruz. No quarto 413. Não sou muito de ligar pra números, mas a soma desses dá 8 e 8 acho que é bom! Foi uma fase de aprendizado. Com Laura e Mario no quarto, tínhamos que aprender os cuidados essenciais, a rotina, os horários. Enquanto isso, o Diogo permanecia na engorda. Eu estava curtindo tudo, tudo era novidade e eu queria estar envolvido com todos os detalhes. Eu sabia que teria que assumir uma parte dessas responsabilidades, especialmente no começo. Então, aprendi a dar banho, a trocar a fralda e limpar o bumbum, a trocar de roupa. E a dar mamadeira. Pois é, como eram 2 e a Bia não tinha muito leite, logo de cara começamos o reforço com leite, o famoso NAN. Tentamos tudo pra Bia dar o peito, tiramos leite, mas foi difícil. Os dois rebentos eram miúdos e davam trabalho pra pegar o peito.

[eu com Laura no colo na luz azul do 413]

Acho que trabalho mesmo só nessa área, porque no mais, os dois eram bem tranqüilos. Dormiam, se alimentavam, as funções vitais funcionavam direitinho, xixi, coco, etc. Mas posso garantir que foram dias agitados. Eu ficava lá o dia todo, curtindo os 5 dias a que tinha direito como pai ‘fresco’, como diziam. Saia pra ver alguma coisa na rua, voltava logo. Não queria desgrudar das crias. Bia se recuperou bem dos pontos da cesariana e ia se acostumando com a nova rotina. Eram cuidados que tomavam bastante tempo, apesar dos dois dormirem bem. E ainda íamos visitar o Diogo na Neo-natal, um andar acima, a toda hora. Brincávamos com ele, colocávamos no colo, Bia dava o peito, a mamadeira. Era doloroso vê-lo na incubadora, sozinho. Ele era bravinho, reclamava toda vez que mexiam nele. E tinha uma carinha meio triste, de partir o coração. Ficávamos emocionados de vê-lo, era tão miúdo. Que bom que nascera bem, sem problemas de saúde. Ele engordava a olhos vistos.

Interessante como cada um já mostrava sua personalidade já nos primeiros dias. O Mario era muito bonzinho, não reclamava, deixava fazer tudo o que tinha que ser feito, sem dar um pio. Tinha um acarinha de homenzinho, meio amassado, aqueles olhos inchadinhos parecendo um Mr. Magoozinho. Uma das enfermeiras caiu de amores por ele, era muito legal ver a relação que ela desenvolvia com ele. Aliás, as enfermeiras foram espetaculares, super qualificadas, carinhosas, pacientes, excelentes professoras de pais de primeira viagem! Por outro lado, a Laura já demonstrava seus atributos de princesa. Era bravinha, impertinente, manhosa. Mas não dava trabalho não. Minhas sobrinhas adoravam a Laura, claro, parecia uma boneca.

Uma passagem ilustra bem o temperamento de cada um. Os dois, Laura e Mario, tiveram icterícia, ficaram amarelinhos e um dos remédios era fazer fototerapia, tomar um banho de luz azul pra compensar a cor [engraçado, né?]. Bom, aí trouxeram dois berços especiais com a tal luz, era todo transparente, tinha luz por cima e por baixo. O quarto ficava inteirinho azul, parecia uma boate, os dois tinham que usar uma proteção para os olhos, uns óculos escuros. Só um dos berços tinha um colchão de silicone transparente e achamos que o Mario, por ser mais magrinho, precisava mais do colchão do que a Laura. Logo nas primeiras horas, o menino fingiu que não era com ele, mas a Laura, não parava de se virar, pra lá e pra cá. E reclamava, gemia, protestava. Depois de um tempo, alguém sugeriu que déssemos o colchão a ela. E pronto, ela parou de reclamar, dormiu na hora. E o Mario? Nem tchum! Continuou a dormir numa boa!

Foram dias diferentes, que eu não vou experimentar de novo. Uma coisa me impressionou bastante, as mulheres. Elas aparecem, visitam, ficam perto. Nessa hora aparece uma energia das mulheres que só elas têm. Um coisa de mãe mesmo, maternal. As visitas que recebemos foram quase 100% femininas. Pra mim, foram dias cheios de emoções, ao mesmo tempo estressantes e de um prazer imenso. Colocar um filho no colo é uma das coisas mais gostosas que existem. Aquele serzinho que a gente nem conhece direito faz a gente transpirar um amor incondicional. Foi aí que descobri o significado do amor incondicional. Amor de pai é isso, a gente ama os filhos e pronto, não tem mais o que dizer. Eu acho que ria e chorava à toa, tudo ao mesmo tempo. Era uma sensação muito boa, que não tem termos de comparação com qualquer outra situação.
[clique no album abaixo para ver algumas fotos]

na maternidade

Na sexta-feira, sinalizaram que estávamos prontos pra ir embora. Tínhamos passado no teste, já sabíamos como cuidar das crianças, aprovados como pais. Putz, deu um frio na barriga, ‘vamos embora pra casa? Só nós dois? Quer dizer, nós quatro?’ Ao mesmo tempo, estava louco pra ir embora, cuidar das crias em casa, começar a estabelecer uma relação de pai pra filhos, de pai e mãe, no nosso ambiente, nossa casa. Então, vambora, uai! No fim do dia, acharam que seria melhor passarmos o sábado também e no final, sairíamos só no domingo. A parte mais difícil dessa mudança, desse início de vida como pai, foi deixar o Diogo no Hospital. Sabia que ele estava ganhando peso e estaria nem, mas ainda assim saí de lá com o coração partido.

Domingo pela manhã juntamos nossas coisas, fizemos a trouxa dos pequenos e fomos pra casa. Já tínhamos tudo pronto para recebê-los. Minha mãe já estava lá de prontidão. Meu sogro nos levou, com o carro pretão dele, como ele o chama. E quem disse que ele conseguia estacionar na nossa vaga? É uma vaga difícil, justinha, precisa estar acostumado. Mas depois de 15 minutos, o carro estava estacionado! Lembro que comemos um Filé a Parmegiana do Bar do Alemão de Itu. Tomamos vinho, brindamos aos trigêmeos. Uma nova fase começava! E a deusa da abundância conheceria o fruto de sua magia!

maio 13, 2008

O parto

[essa era a minha visao na hora do parto...]

Então, estávamos lá, no dia 30 de março de 2004, a espera da hora do parto. Hora do parto? Hora marcada? Não, nada disso, Bia entrou pela emergência, não tinha nada marcado apesar de sabermos de antemão que seria cesárea, claro! Estávamos esperando, esperando, esperando nossa amiga que iria fazer o vídeo do parto! Dá pra acreditar? A Bia entrou na sala de parto antes das 7 da manhã, os médicos estavam lá, o anestesista, os 3 pediatras neo-natal, 4 enfermeiras, meu sogro que é médico, o outro obstetra, pai do Dr. André...só não estava o Dr. André, que havia acompanhado a gravidez....ele também era amigo da nossa amiga do vídeo e sabia que ela estava na estrada, vindo de São Paulo. O show só ia começar com a câmera ligada! Nao sou muito fa desse tipo de video, nosso casamento nao teve video, ja viu coisa mais chata que video de cassamento? So a noiva gosta...deculpme as noivas que gostam de video de casorio, ta?! Mas o video do nascimento dos 3 seria um documento pra eles, pra nos, pro futuro.

Eu estava lá no meio daquele bando de gente de roupa verde [lembro que contei 13 pessoas na sala, fora a Bia], zonzo, atarantado, misto de nervoso, aflito, desesperado, a beira de um ataque de nervos...a tensão era tão grande que lá pelas tantas eu só dava risada, fiquei anestesiado, não sentia nada, estava amortecido, tava tudo bem...lembro de que a chefe do neo-natal me deu um copo de água logo que entrei na sala...será que tinha alguma coisa? Pode ser... [Brincadeira. Mas pensando bem, acho que pode ate passar pela cabeca dos medicos, vamos deixar esse cara manso pra ele nao dar trabalho...hahaha]. Só sei que o Dr. André chegou, calmo, tranqüilo, numa boa, deu as últimas instruções, preparou a Bia...claro, ele sabia que a câmera estava perto. Não demorou 2 minutos e nossa amiga entrou na sala com a câmera ligada, correndo, esbaforida. E começou!

Eu fiquei atrás da cabeça da Bia, protegido pelo campo, pra não ver sangue e outras coisas. Achei ótimo, fiquei sentado numa cadeira, olhando o movimento, ansioso. Minha câmera estava apostos mas, claro, quem disse que a bateria estava carregada?! Durou o tempo exato para registrar os primeiros sinais dos trigêmeos. E a cada um que nascia, os médicos gritavam, chegou um, que é esse? E pegavam a criança, levavam para os primeiros testes, limpeza e sei lá mais o quê. Uma loucura!

Primeiro chegou o Mario, as 09:41, quietinho, bonzinho, numa boa, amassadinho. Dois minutos depois, as 09:43, veio o Diogo, bravinho, brigando com todo mundo, bem amassadinho. E por fim, as 09:45, nasceu a Laura, largadinha, molinha, rechonchuda, linda! Depois de um tempo com os médicos, eles foram sendo trazidos pra perto da Bia e ai foi emocionante. Nossa, eu pirei. Era muita criança e perto da mãe eles ficaram quietinhos. Aí tem a tradicional exibição para os familiares que estão na porta. Minha mãe, minha sogra, minhas irmãs, minha cunhada, tava cheio e os três apareceram e foi aquela confusão, choro, lagrima, risada, uma loucura!

Foram muitas loucuras, tudo foi uma loucura muito grande. Depois, enquanto a Bia se preparava pra ir pro quarto, fiquei um pouco lá olhando as crianças sendo arrumadas nos bercinhos, com gorrinho, luvinha, todos tão pequeninos! Os dois meninos nasceram com a cara do meu pai, que não era um grande galã, mas era papai Noel. Pois é, eu sou filho do papai Noel. E os dois netos do papai Noel eram a cara dele! O Mario nasceu com 2 quilos, o Diogo com 1 e 800 e a Laura com 2 e 400. já pensou, eram mais de 6 quilos só de neném na barriga da Bia, fora placenta e outros líquidos. Mais uma loucura!

Acho que eu ainda não sabia direito o que estava acontecendo! Fui pro quarto e a Bia ainda não havia chegado. Aproveitei pra ligar pra minha irmã no Colorado e dar a notícia. Liguei pros amigos da escola. E fiquei ali pasmo! Acho que estava cansado, moído, mas tinha uma energia estranha, sei lá, acho que podia sair correndo uma meia maratona, adrenalina pura! Eu não sabia se ria, se chorava, se casava, não hipótese fora de questão, se comprava uma bicicleta, isso, uma não, três! Uma bicicleta pra cada um, claro, das melhores, perfeito. As pessoas falavam comigo, o telefone começou a tocar, a Bia chegou no quarto, eu estava com um pouco de fome, o estômago embrulhado, alguém me levou pra comer um sanduíche no buteco da esquina, acho que foi meu cunhado, não lembro. A próxima coisa que me lembro é da Laura e do Mario chegando no quarto, enroladinhos, num berço transparente, com rodinhas e mil acessórios. O Diogo ficou na neo-natal, precisava ganhar um pouco de peso. O importante é que todos nasceram bem, a Bia estava bem. Apesar de prematuros, não tinham nenhum problema, nada.

Era muita emoção...pai de trigêmeos!!! Caramba! O que seria de mim??? Acho que eu precisava dormir. Mas isso não aconteceria tão cedo! Teríamos alguns dias de hospital antes de ir pra casa.

maio 11, 2008

O último dia da barriga

Foram 36 semanas de convivência, quase nove meses (na verdade 8 meses e duas semanas), exatos 252 dias. Bia já estava explodindo, enorme, gigante. A barriga era um colosso! Redonda, esticada, era quase uma entidade que tinha adquirido vida própria. Dava pra ficar na dúvida: era barriga que levava a Bia? Não dava mais, já estava no limite. Acho que a Bia não agüentava mais. E chegou a hora!

Eu já não sabia mais o que fazer, estava bastante apreensivo. Quando a gravidez atingiu 32 semanas, o Dr. André relaxou, deu parabéns pra Bia, nos deixou relaxar um pouco – fomos ate comer uma pizza naquele dia, depois da consulta. Com 32 semanas, os bebes já estavam bem formados, com os pulmões plenos, tudo em cima. Claro que há riscos num parto de 32 semanas, mas é o tempo mínimo para evitar grandes problemas. Depois disso a Bia ainda agüentou mais 4 semanas, uma heroína!

E olhando pra trás, a coisa correu muito bem. E os bebês estavam prontos pra vir ao mundo. A nota infeliz ficou por conta de uma pequena paralisia facial que a Bia teve 2 dias antes do dia do parto. Era um domingo. Eu, como de costume, tinha dormido no chão, num colchão de solteiro ao lado da nossa cama. De manhã, a Bia levantou, foi ao banheiro e de repente começou a rir. Ria, ria, gargalhava! Eu fui ver o que era e lá estava ela se olhando no espelho, esticando com as mãos as bochechas, os lábios, os olhos. ‘Que foi?’, perguntei. Ela demorou pra retomar o fôlego e finalmente disse: ‘Tô toda torta!’, e o riso continuava solto. Sorte que não foi nada grave e parece que é algo mais freqüente do que se imagina. Naqueles 2 dias finais Bia deu uma inchada grande e achamos que foi por causa do molho shoyu (muito sal, muito sódio), que comemos com sushi e sashimi.

Então, estava eu dormindo na sala de segunda pra terça-feira e o dia chegou. Acordei com a Bia me chamando por volta das 5 horas da manhã (segundo ela, já estava me chamando desde as 2 da madrugada e eu não ouvi). Quando cheguei ao quarto, ela disse, acho que fiz xixi, estou molhada...’Será Bia?’, perguntei. ‘É, pode ser a bolsa que estourou’. Ligamos pro Dr. André e ele nos disse pra irmos direto pro hospital. O pai da Bia insistiu em levá-la, passou lá em casa, e fomos embora. Chegamos lá às 6 e meia, Bia foi direto pra sala de parto, eu passei no quarto e em quinze minutos fui encontrá-la. Quando entrei na sala, depois de colocar a indumentária toda verde, lavar as mãos, mascara, toca, etc, Bia já estava deitada, pronta pra receber a anestesia.

Eu nunca tinha imaginado assistir um parto, nem de meus filhos, não sou muito amigo de hospital, cirurgia, nada disso. No início, achei que não iria assistir, mas depois, conversando com a Bia e especialmente com o Dr. André, eles me convenceram de que eu deveria assistir. Claro, né! Eu seria pai de trigêmeos, uma gravidez espontânea, raríssima. E não pretendia ter mais filhos depois dos três! E o sogro era do corpo clínico do hospital todos os médicos eram conhecidos, estava tudo a favor pra que eu assistisse. Lá estava eu, prestes a conhecer meus filhos, pronto para encontrá-los.

Depois de tanto tempo vivendo com o barrigão da Bia, estávamos a poucos minutos de começar uma nova fase em nossas vidas. Bia se tornaria mãe! Mãe de trigêmeos! E eu começaria minha nova vida como pai de trigêmeos. Era o dia 30 de março de 2004.

maio 10, 2008

Dia das mães

É dias das mães. Parabéns, Bia, porque você é uma mãe muito, muito especial.
4 anos se passaram, 4 anos de maternidade! É o seu dia!
Um abraço apertado, um grande beijo.
Do seu maior admirador, que te ama!






Feliz dia das Mães!!!

maio 09, 2008

O chá das fraldas

Não me lembro exatamente quando foi, acho que foi mais ou menos um mês antes do nascimento dos trigêmeos. O que sei é que foi uma idéia sensacional, que nos ajudou muito. Na verdade os amigos estavam sensibilizados com o que estava nos acontecendo, especialmente eles, porque acho que todo mundo ficava. Pensa bem, você não está esperando ter trigêmeos, é um trabalhador, não ganha rios de dinheiro, sua mulher idem, suas perspectivas profissionais não são das mais promissoras, então, acho eu, ficava todo mundo preocupado com o que o futuro nos reservara.

Então, um dos amigos da Bia, por sinal também um arquiteto [talvez por isso ele estivesse tão preocupado, pois sabia das dificuldades de nossa profissão], resolveu organizar um chá de fraldas. Só para homens! Esse amigo era famoso pelas festas que organizava, todas super produzidas, super concorridas, super badaladas. O cara era um expert em promover eventos e reunir pessoas. E o chá das fraldas foi um sucesso estrondoso, atingiu e superou as expectativas.

O convite era o seguinte: venha para o churrasco, tomar um chopp e traga um pacote de fraldas. Só sei que saía gente pelo ladrão, tinha gente ali que eu nunca tinha visto, o amigo, do amigo, do amigo. Alguns amigos mais próximos levaram vários pacotes de fraldas. Claro que ouvi comentários e fui motivo de piadas das mais variadas, a isso eu teria que me acostumar, pois dali pra frente seria uma constante. Outros queriam me dar aulas de como colocar uma fralda. Recusei com educação a aula grátis, dizendo que em quinze dias de paternidade eu seria Phd em troca de fraldas.

Bom, sai dali bêbado [segundo a Bia passei mal a noite toda] e com o carro abarrotado de fraldas [nem me lembro que carro eu tinha na ocasião, acho que era um Palio]. Montamos um estoque de fraldas para quatro meses! Quatro meses de fraldas para trigêmeos! Dá pra imaginar? Enchemos um armário do quarto das crianças só com pacotes de fraldas. Não sei se nosso amigo que inventou chá tem idéia de como nos ajudou. Nem se as pessoas que foram sabem como foi importante aquela ajuda no começo. Ficamos muito agradecidos, não tivemos palavras que pudessem expressar nosso agradecimento.

De qualquer jeito, as fraldas fizeram um capítulo especial nessa história. Desde a quantidade diária, mensal, usada, até a minha relação com elas. Mas isso conto depois.



O quarto dos trigêmeos

Nunca fui muito a favor dessas decorações de quarto de criança. É tanta traquitanda, tanta emperiquitação que parecem cenários e não quartos de criança. Achava que o quarto deles deveria ter alguma coisa especial, mas nada muito carregado. Depois que soubemos que eram uma menina e dois meninos, resolvemos arrumar o quartinho deles.

Pensei por uns dias no que poderíamos fazer, que fosse simples e desse um toque especial. Como eles já tinham muitos primos e primas, achei que a participação deles na arrumação do quarto seria uma boa idéia. As paredes do apartamento eram de uma cor de pêssego bem clarinha. Pintamos uma faixa azul clara à volta toda do quarto. Então cortei um ladrilhos de mdf de 15 x 15 centímetros e pedi pra que cada sobrinho pintasse um ladrilho pra colocar no quarto dos tri.

Como seria nosso primeiro Natal no apartamento do Ceres, aproveitamos para fazer um almoço e convidamos toda a família. E fizemos uma oficina de desenho com as crianças, que resultaram em ladrilhos lindos. Depois do Natal, apareceram uns amigos com os filhos que também participaram da farra. Até meus sobrinhos que moram no Colorado, nos EUA, mandaram seus ladrilhos [mandei pra minha irmã as medidas e o conceito da coisa e ela enviou os ladrilhos pelo correio].

As crianças pintavam os ladrilhos e explicavam o que eram. O mais legal era o de uma onda gigantesca com um cara pequenininho lá embaixo, que seria engolido por ela. Eu perguntei, nossa, o que é isso? E a resposta não poderia ser mais impressionante: ‘É você!’ aquele moleque de sete anos havia captado no ar o meu estado de espírito. Ele devia ver que eu estava enfrentando um maremoto!

Depois colei todos os ladrilhos seguindo a faixa azul na parede. Ficou muito simpático e original. E mais importante de tudo, ficou como registro da participação de todos os primos, um quarto cheio de estórias, singular. Numa das paredes pendurei uma estante pra colocar umas coisas necessárias, talco, etc. e instalei luminárias branquinhas. Mandamos laquear a velha cômoda da Bia e por fim pintamos umas faixinhas no armário. Os berços eram todos tipo patente. Um grande amigo emprestou dois berços lindos que haviam sido dele próprio e da mãe. E encontrei um outro, pintado de branco, que ficou pra menina. A isso acrescentamos uma poltrona para a futura mamãe amamentar.

Um dos problemas era como organizar o espaço do quarto, que parecia um pequeno albergue. Muitas coisas mudaram e foram acrescentadas depois que eles nasceram e começamos a usar o quarto de verdade. Como diz o ditado, na prática a teoria é outra.



maio 08, 2008

Os nomes

Escolher nomes não é uma tarefa das mais fáceis. Quem tem filhos sabe que escolher o nome do futuro serzinho é delicado. Se escolher um é difícil, imagina três! Tivemos sorte porque ninguém interferiu, deu palpite ou coisa assim.

Nós queríamos nomes curtos, fortes, marcantes. Nada de nomes compostos. Ou parecidos porque seriam trigêmeos, queríamos manter a singularidade de cada um. No fim, Bia me deixou livre pra escolher os nomes. Acho que ela queria me dar alguma outra participação na história, já que no negócio da barriga ela era a protagonista e eu mero coadjuvante. Eu só tinha que apresentar as sugestões para aprovação final. Acho que pensamos seriamente nuns sete ou oito nomes. Fizemos a numerologia, consultamos dicionários de nomes, apelamos para interpretações esotéricas, telúricas, holísticas, transcendentais (haha). Falávamos os nomes em voz alta, ‘será que vamos agüentar falar esses nomes milhares de vezes ao longo da vida?’ Eu fazia piadas como nomes estapafúrdios, combinando três que fizessem rimas: Ermenegilda, Felisberto, e Florisbelo ou Fausto, Floro e Gaia. Nomes são coisas complicadas, alguém escolhe o nome do outro e mudar de nome não é tarefa muito fácil.

Por fim ficamos com Diogo, Laura e Mario. Difícil explicar por que. Diogo, porque é um nome forte, um pouco incomum. Mario era o nome de meu avô paterno, um avô querido, carinhoso. Também incomum atualmente. E Laura porque eu, particularmente, acho lindo. E talvez porque eu tenha uma tia Laura que é fenomenal. Uma mulher forte, vigorosa, inteligentíssima. Foi dona do colégio Gávea em São Paulo e depois virou dona de pousada nas serras fluminenses. Tudo que faz, faz com competência admirável. Uma das estórias mais legais da Laura foi contada pelo Mario Prata [em Meus homens e minhas mulheres], que foi casado com sua filha. A estória é mais ou menos assim: ela dirigia o colégio e um pai de aluno foi até ela reclamar que o filho não havia passado em matemática. ‘Minha senhora’ ele dizia, ‘meu filho vai ser um diretor, vai cuidar de seus próprios negócios, vai ter assessores pra fazer esse tipo de contas’ e Laura respondeu: ‘meu senhor, nesse colégio formamos assessores’.

A partir de então ficamos esperando Diogo, Laura e Mario chegarem.

maio 07, 2008

Os últimos sinais da barriga


Então, com vinte e poucas semanas foi recomendado que a Bia fizesse uma cerclagem, um procedimento não muito comum, mas bastante realizado em mulheres que tem problemas na gravidez, que não conseguem segurar a criança. Como a Bia tinha três pequenos lá dentro e eles cresciam de vento em popa, Dr. André achou mais prudente fazer a cerclagem. Apesar da tensão que envolve uma cirurgia, correu tudo bem.

Tirei fotos de toda a evolução da barriga. Nós só compramos uma máquina digital naquela época pra poder documentar tudo. Tenho fotos muito legais. Saber o sexo dos três foi uma das coisas mais legais. É, teríamos uma menina e dois meninos! Fizemos aquele exame morfológico, num daqueles ultrassons super sofisticados, dava pra ver até a unha que ainda não nasceu. Aí vimos as primeiras feições de cada um, os pezinhos, mãozinhas. É emocionante. E meio esquisito também. Quando já sabíamos o sexo dos três, escolhemos os nomes e escrevemos no barrigão, mais ou menos marcando o respectivo lugar de cada um lá dentro.

Depois disso a barriga da Bia só fez crescer. E ficou gigantesca, sem brincadeira. Quando saíamos de casa pra pequenos passeios a pé pelo centro, as pessoas paravam pra olhar a barriga. Quem passava mais rápido que nós, indo na mesma direção, olhava pra trás pra se certificar daquilo que tinha visto. Quem passava na outra direção, parava, coçava a cabeça, incrédulo. Algumas pessoas, normalmente senhoras, falavam com a Bia, elogiavam a barriga, faziam perguntas.

Eu achava engraçado. E espantoso que a Bia conseguisse andar com aquele barrigão. E ela continuava fazendo de tudo, levando sua vida normalmente. Continuou trabalhando, lavando louça (de lado na pia), tudo numa boa. Quando ela chegou ao sétimo mês (ou trinta e quatro semanas), ela tirou uma licença, ficou uns quinze dias em casa. Ai ela já tinha um acerta dificuldade pra sentar, levantar, deitar e essas coisas. Seu passatempo predileto era montar quebra-cabeças. Montou uns três ou quatro daqueles gigantes.

Na última semana a barriga ficou estratosférica, algo nunca visto. Nisso já estávamos chegando ao nono mês, algo extraordinário para uma gravidez de trigêmeos. Por fim, ela agüentou trinta e seis semanas, tempo suficiente pras crianças se desenvolverem plenamente.

Convivi com aquele barrigão, meio insone, preocupado, sempre procurando estar preparado para qualquer eventualidade, uma complicação, um parto prematuro. Não sei se tenho saudades. Pô! Ele me tirou da minha cama por meses a fio! Me afastou da minha mulher! Nem um abraço eu podia dar sem que ele ficasse entre Bia e eu. Aquele barrigão não era discreto, não me deu sossego! Era espaçoso, um folgado! Claro, tô fazendo piada. Acho que sinto certa falta dele sim, mas naquele momento eu não via a hora que a moçadinha saísse lá de dentro!. Foi uma experiência inesquecível, mas que não vou repetir! Afinal, trigêmeos tá de bom tamanho, né?!

maio 06, 2008

Os primeiros sinais da barriga

Para uma gravidez de trigêmeos, até que a gravidez da Bia foi bem tranqüila. Como essa foi minha primeira experiência de gravidez, não tenho muitos parâmetros para comparação. Aliás, foi a primeira e última gravidez! Então não vai dar pra saber mesmo. O que sei é que a Bia não reclamava de nada, não sentia nada, ia tocando a vida normalmente enquanto a barriga crescia, crescia, crescia tanto que parecia que não ia parar nunca. Foi uma gravidez cercada de muitos cuidados de todos os lados. Também, pai e irmão médicos e muitos amigos médicos também.

Com dois meses já dava pra ver uma barrigazinha. Não dava pra afirmar com certeza que era uma barriga de grávida, mas ela já estava lá. Com uns quatro meses a barriga já tinha um tamanho considerável, parecia uma barriga de sete meses de uma gravidez normal. Não me lembro muito de outras barrigas. Minha irmã mais velha teve um barrigão da segunda gravidez que me lembro até hoje. A primeira gravidez da minha cunhada só apareceu com seis meses. Acho que as barrigas de gravidez são muito pessoais, variam de mulher pra mulher, entram aí fatores genéticos, saúde geral, forma física, disposição, astral, o futuro rebento que vai chegar, seu tamanho, sexo e muitas outras coisas. Apesar de ter acompanhado essa gravidez de trigêmeos, isso não me fez um especialista no assunto e nunca tive essa pretensão.

Mas, se pra Bia as coisas estavam sendo mais fáceis do que se poderia esperar, pra mim as coisas eram bem mais difíceis. Acho que dá pra imaginar um marinheiro de primeira viagem enfrentando uma tempestade em alto mar, não dá? O cara no convés do navio, pendurado sobre o mar, botando os bofes pra fora! Então, esse era eu, um futuro pai tendo pela frente uma gravidez tripla. (Acho que exagerei na imagem do marinheiro, não botei os bofes pra fora...mas chegou perto!) Até que no começo a coisa foi bem, a gente que se divertia bem, saía, fazia uma viagens curtas, tudo bem tranqüilo. Mas por volta da vigésima semana, ou por volta dos quatro meses, tudo mudou. E muito!

O obstetra que acompanhava a Bia era o Dr. André, amigo da Bia, filho do amigo do meu sogro, os dois eram colegas no mesmo hospital. Eu não o conhecia antes de entrar em seu consultório acompanhando a Bia. E logo de cara simpatizei com ele. Um cara franco, aberto, bem humorado, extremamente profissional. De vez em quando falava um pouco mais rápido do que o normal, o que me rendia alguns comentários divertidos depois da consulta, quando me perguntavam como tudo estava indo. Uma das coisas que ele disse e que marcaram a Bia e a mim foi: ‘agora acabou o glamour’, frase que ele mesmo traduziu como, depois dos filhos, acabou essa vida mansa de casal. Achei graça na hora, mas o cara tinha muita razão, muita.

Desde o início Dr. André deixou bem claro que a gravidez da Bia era de risco, que trigêmeos gerados naturalmente não era normal e que apesar da boa saúde da Bia, sua gravidez inspirava muitos cuidados. Mas ele sempre elogiava a Bia, dava parabéns. Bom, lá pelo quarto mês, fomos à consulta, tudo bem, ok, fez o ultrassom de rotina (aliás, ultrassom de gravidez é um negócio mágico, ainda mais de múltiplos, um monte de gente lá dentro, perninhas, bracinhos, quem será esse, e esse, é outro? Era a parte divertida da consulta ver a moçadinha dentro da barriga), beleza. Aí o Dr. André começou a falar: ‘agora acabou a brincadeira, não pode bobear, essa é uma gravidez de risco, e tem que tomar muito cuidado, parará parará parará’. Enquanto a Bia foi se trocar, ele continuou falando comigo, milhões de conselhos, advertências, instruções de precauções etc, etc, etc. O recado era, claramente, esse: se vocês não tomarem cuidado, pode ir tudo por água abaixo.

Eu saí dali arrasado, destruído, apavorado. Daí pra frente não dormi mais uma noite sequer. Acho que para a Bia as palavras do médico não tiveram o mesmo efeito, ela continuou dormindo a noite toda, numa boa. Preciso fazer uma pequena correção aqui. Disse que a Bia não sentiu nada, não reclamou, mas teve uma coisa que a incomodou: dormir. A barriga era muito grande, acho que descompensava o equilíbrio do corpo na horizontal, ela tinha que calçar a barriga, as costas, as pernas. Eram uns cinco travesseiros a mais na cama, fora a barriga, que com quatro meses já ocupava um bom espaço. Resultado, fui pro chão, num pequeno colchão ao lado da cama, minha ex-cama. Ali de baixo eu deitava, mas ficava ligado. A cada suspiro da Bia, a cada virada de lado que ela dava e eu esticava o pescoço, olhava pra ver se estava tudo em ordem. E assim foi até o dia do parto: o barrigão crescendo e eu sem dormir...


maio 05, 2008

A deusa da abundância

Pra começar a falar da gravidez da Bia, eu preciso contar como foi a concepção. Até isso tem uma estória, da pra acreditar? Mas tem! E começou quando nos mudamos de apartamento, em julho de 2003. Nos morávamos no Condomínio Harmonia, num apartamento de dois quartos muito legal, super bem localizado, perto do Centro e do Cambuí, o bairro mais consolidado de Campinas, com toda a infra-estrutura. Era um conjunto de três prédinhos típico desse tipo de projeto que nos anos 60 e 70 eram conjuntos populares, financiados pelo BNH ou Inocop: de três andares, sobre pilotis, com uma área livre entre os prédios. Sem elevador, os apartamentos eram muito bons, comparados com os que se fazem hoje de bom padrão: ambientes grandes, janelas grandes, muito bem iluminado, área verde.

Morávamos ali desde nosso casamento e quando começamos a pensar em filhos achamos que devíamos morar num lugar maior. Tínhamos um terreno num loteamento em Sousas e fizemos até o projeto da casa. Mas não ganhávamos muito na época e achamos que não teríamos gás pra construir o que queríamos. Então resolvemos comprar um apartamento. De cara disse pra Bia: ‘então vamos começar pelos prédios que acho interessantes pra ver se têm apartamentos vazios’. Saímos do Harmonia pela Moraes Sales em direção ao centro e descemos a Boaventura do Amaral. Na esquina com a praça Carlos Gomes eu parei: ‘olha esse prédio, é sensacional’. Olhamos e perguntamos para a moça na portaria se tinha algum apartamento a venda. Tinha. Mas o condomínio era bem salgado.

Continuamos procurando e vendo apartamentos por uns 20 dias. Até que a Bia lembro de um amigo nosso que trabalha com imóveis. Estávamos na rua não nossa busca e ela ligou pra ele e descreveu o que estávamos procurando: apartamento de três quartos, amplo, não precisava ser novo, entre o Cambuí e o Centro. A conversa durou uns cinco minutos. Vinte minutos depois ele nos ligou: ‘Bia, eu tenho um ótimo pra mostrar pra vocês, querem ver agora? onde vocês estão?’ Bia falo que estávamos ali, assim, assim e que tudo bem, queríamos ir agora. Ele explicou onde era e que nos encontraríamos na parca Carlos Gomes na esquina da rua Conceição. Tudo bem, fomos pra lá.

Chegamos na esquina da praça, rua Conceição com Boaventura do Amaral. Olhei pro prédio de que gostava pensando onde nosso amigo nos levaria. Ele chegou, nos cumprimentamos e fomos andando em direção ao prédio. Não disse nada. Fomos entrando, subimos ate o oitavo andar. Quando abrimos a porta, uma sala super espaçosa, com um janelão em toda a extensão de frente pra praça, na altura das copas das palmeiras imperiais. Eu comprei o apartamento ali, sem nem saber o preço! E o apartamento inteiro era muito bom, do jeito que queríamos e até muito melhor do que poderíamos imaginar. Comparando com o que tínhamos visto era melhor, tanto em termos de qualidade como de valor. Fechamos negócio ali, na hora!

Isso era final de maio, inicio de junho. No começo de julho já tínhamos mudado. E durante uma semana fizemos nossa festa particular, estávamos tão felizes com o apartamento e a vista que tínhamos que comemoramos todos os dias, sem exagero! E ano deu outra! Segundo a Bia foi durante esses dias que ela engravidou! É, porque como são três, achamos que a concepção aconteceu em dias diferentes! Pois é! Mas, o engraçado é que no prédio só moravam pessoas da terceira idade, literalmente, só senhorinhas, daquelas bem vovózinhas. Muitas delas eram viúvas dos dez construtores do prédio, que o construíram no inicio dos anos 60 para eles próprios morarem (o prédio ficou pronto em 1961, ou seja, tem 47 anos).

E o nome do prédio? Quem adivinha? Ceres. É, Ceres, a deusa da fecundidade da terra, dos cereais, da abundância da colheita! E a gente brincava dizendo que estava lá a deusa Ceres, descansando a quarenta anos, sem nada pra fazer no meio daquelas senhorinhas, até que chegamos eu e a Bia. E a deusa Ceres acordou da preguiça em que estava e tirou o atraso, descontou, lavou a alma. E a deusa nos trouxe a abundância das sementinhas, da fecundação, da colheita e nos deu esses três rebentos. Oito meses depois, em marco de 2004, os três viriam ao mundo. Aproveitamos bem o apartamento sozinhos, bem grande só pra nós dois. Pro barrigão da Bia foi excelente! Foi ótimo pra criar os três, até de bicicletas eles andam aqui dentro. A praça foi ótima pra eles, todas as tardes desciam pra brincar um pouco lá. Mas eles estão crescendo e o apartamento que era grande está ficando pequeno...Eu adoro o lugar, a vista, o espaço. Mas um dia vamos ter que dizer adeus pra deusa...

maio 04, 2008

Por que mesmo comigo?

Pelo jeito acho que já deu pra perceber que tivemos trigêmeos. Pois é, três de uma vez! Não fizemos nada pra que isso acontecesse, nenhum tratamento, nenhum projeto especial. Nada. Quer dizer, nada especifico para conceber três de uma vez. Talvez tenhamos feito algo antes, talvez em outras vidas, pra pagar agora cuidando de três. Tenho um amigo que diz que eu devo ter matado muito passarinho quando era moleque. Sei lá, que eu me lembre não, talvez em vidas passadas. Minha infância foi bem urbana, na São Paulo dos anos 60 e 70.

Claro, não vá pensando que não nos sentimos gratificados com essa dádiva, mas que é difícil pacas cuidar de três de uma vez, isso não dá pra negar. Como tudo na vida, ter trigêmeos tem o lado bom e o lado ruim. Na verdade, nossos planos eram ter apenas um e, quem sabe, numa possibilidade muito remota, ter mais um. Sabe como é, a vida esta difícil, dar uma vida confortável pra um só já é difícil, imagina pra dois. Três então, nem se fala. Casamos tarde, maduros e não estávamos pensando em abrir mão de certos confortos que tínhamos conquistado com anos de trabalho, começando carreiras tarde, por baixo, pra subir alguns degraus que nos dessem alguma liberdade.

Não que não gostássemos de crianças, pelo contrário. Eu, particularmente, adorava, sempre adorei, adoro crianças. Antes de ser pai, fui tio de dez sobrinhos, todos encantadores. Hoje são doze sobrinhos, quatro de um lado, oito do outro. Sempre brinquei muito com todos eles e minhas irmãs brincavam comigo dizendo que as crianças deviam me enxergar como um ser verde, por que eu exercia certa atração sobre elas (o que não se aplicou muito bem aos sobrinhos do outro lado, da minha mulher). Era só eu chegar que corriam pra cima de mim. O primeiro dos sobrinhos foi o Guilherme, que hoje é pré-adolescente. Filho da minha irmã caçula, foi o primeiro dos netos de meus pais. Quando ele nasceu, eu havia acabado de voltar de uma jornada pela Europa, com uma mão na frente e outra atrás, meu pai havia morrido recentemente, a Guy (minha irmã) era recém casada e o Fernando, o marido, ainda estudava medicina. Morávamos todos juntos na casa de minha mãe. Acabei sendo escolhido para padrinho do menino (sou o único irmão da Guy e o Fernando tem dois, então acho que ficou fácil decidir assim, pra minha sorte) e fazia de tudo com ele. Levava-o pra passear, dava comida, tomava conta. Só não fazia uma coisa, que eu não cansava de repetir que só faria com filho meu: trocar fralda.

Eu me perguntava, desde o começo, dos primeiros exames e durante toda a gravidez. Continuo me perguntando sempre porque eu mesmo? Por que isso aconteceu comigo? Não sei, não cheguei nem perto de uma resposta plausível, convincente. Acho que vou encontrar essa resposta na minha própria vivência, a medida que a minha própria vida com os trigêmeos for fazendo sentido, for se concretizando. Mas pode deixar que eu vou contando como tudo aconteceu e isso pode fazer sentido pra cada um que lê. Pode deixar que eu conto minhas peripécias com as fraldas um pouco mais pra frente. Mas antes tenho que contar muitas coisas, como, por exemplo, como foi a gravidez da Bia e como convivi por longos meses com aquele barrigão!

maio 03, 2008

Trigêmeos!!! Nossa!!!

Bom, dá pra imaginar como foram as reações das pessoas a essa notícia. Se nós estávamos meio incrédulos, imagina os outros. Se nós ainda não tínhamos nos acostumado, enfrentar o que os outros diziam era o começo de uma aventura que sequer havíamos imaginado que iríamos trilhar. Na maior parte do tempo nos divertimos muito com tudo. Mas eu que gostava de uma atitude ‘low profile’, discreta, que não gostava de chamar muita atenção, tive que mudar muito, muito mesmo.

A família ficou pasma! Ninguém acreditou, todos ficaram muito preocupados, foi uma loucura! A primeira pessoa que soube foi minha sogra. Ela estava com a Bia fazendo o ultrassom que confirmou os trigêmeos. Não vi a expressão que ela fez, mas adivinho, porque já vi essa expressão de espanto que ela faz quando as coisas a pegam desprevenida. Seus olhos se arregalam um pouco, parece que ela olha através das coisas e ai ela fala: ‘hein!!!’ Pois é, no primeiro momento a sogra ficou bem preocupada. Ficou assim por alguns dias, sem nem falar direito, o que pra mim era um espanto.

No dia do ultrassom, passou por lá o irmão da Bia, também médico. Passou lá pra dar uma forca pra irmã, apoio moral, ficou na sala por um tempo. Ele já estava preocupado com a idéia de gêmeos, imagina com trigêmeos. Ele falou pra Bia, acho que mais pra tranqüilizar, dar uma acalmada nela, que estava meio tensa: ‘fica tranqüila, trigêmeos só com tratamento, não tem jeito, você não vai ter três não’. Depois de confirmada a gravidez tripla ele ficou meio quieto, como é seu costume. Mas depois de um tempo dava risada.

Minha mãe chorou, assim como minhas irmãs. Não é uma reação muito estranha em minha família. Elas choram mesmo, até em bolinho de aniversário de criança, em qualquer filminho água-com-açúcar, em qualquer despedida por mais de uma semana. Choraram dando risada, sabem como é isso, né? A reação digna de nota mesmo foi a do meu cunhado, todo machão. Eu já estava casado há quatro anos e nada de filho. Minha irmã mais velha ficara casada cinco anos e nada de filho. A outra, depois de cinco anos sem filho, começou a fazer umas simpatias naturais, no mínimo estranhas, pra não dizer que algumas eram hilárias. A que mais marcou foi o tal banho de banheiro com nabo. É! Ela entrava na banheira com um monte de nabo boiando e dizia que isso ajudaria a engravidar...e não ‘e que ajudou? Alguns meses depois ela engravidou e, claro, dizíamos que o filho era do nabo! Mas voltando ao cunhado macho, ela namorou minha irmã caçula doze anos antes de casar. Desde que eles tinham doze anos! Dá pra acreditar? E na família dele havia uma tradição das pessoas casarem grávidas. Lógico, ele seguiu a tradição e eles casaram grávidos! Então ele (e a família dele, de quem somos muito amigos, são muito divertidos) achava que na minha família não tinha macho, que ninguém sabia fazer filho e falava um monte, tirava o maior sarro de mim, dizia que minha p.... era fraca. Bom, não preciso falar mais nada, né! Quando ele ficou sabendo que eu ia ser pai de trigêmeos, ficou na dele e quem tirava sarro era eu, perguntando: ‘quem tem p.... fraca?’

Meus amigos na universidade ficaram espantados! Davam risada, ficavam repetindo: ‘trigêmeos!... trigêmeos!... trigêmeos!...’ Esse foi o assunto por uns bons meses na escola. As pessoas queriam saber o que nos tínhamos feito, como é que foi e parará parará. Davam risada, faziam piada, me chamavam pra falar umas coisas. Um professor, grande amigo, deu logo o apelido de ‘ninhada’ pros futuros bebes. As professoras e as secretarias se emocionavam. Todas vieram falar comigo e me olhavam com aqueles olhos de ternura de mãe ou de futuras mães, aquele olhar comprido que só as mulheres têm.

Para algumas era inconcebível alguém gerar trigêmeos de forma natural, sem tratamento. A primeira pergunta que faziam, ao saber da gravidez tripla era exatamente: ‘vocês fizeram tratamento?’ Quando ouviam não como resposta, ficavam espantados e alguns ficavam totalmente incrédulos. É compreensível, numa época em que muitos recorrem a tratamentos para engravidar e acontecem muitos casos de gravidez múltipla, uma gravidez assim natural é que parece a coisa estranha. E é mesmo, a estatística de ocorrência de trigêmeos é de uma gravidez em um milhão ou perto disso. Até hoje encontro um amigo de meu pai, um sujeito muito falante e engraçado, que deve estar na casa dos setenta anos e que a brincadeira dele é essa, comentar a gravidez dos trigêmeos. Todas as vezes que eu o encontro ele fala: ‘mas e ai, que tratamento você fez?’ ou ‘conta a verdade, pode falar que fez tratamento, não conto pra ninguém!’ ou ainda: ‘você não tem cacife pra isso, três de uma vez, sem ajuda!?’ E sai dando risada. Acho que tem gente que não acredita mesmo, fazer o que?

É, nem tudo foi só divertido. Ouvi muita piada de mau gosto também. Mas isso é outra história... E as reações foram mudando da notícia para a barriga da Bia, que ia crescendo a olhos vistos. E isso também é outra história...